01/08 - Legião Urbana digitaliza acervo de olho nos celulares

Legião Urbana digitaliza acervo de olho nos celulares Acordo com EMI prevê venda de clipes, shows e entrevistas para 3ª geração dos aparelhos, que aceita mais que ringtones

Dificuldade de dimensionar mercado fez negociação durar mais de um ano; contrato é inspirado no que está sendo oferecido aos ex-Beatles


ROBERTO MACHADO
DA SUCURSAL DO RIO

Exatos 25 anos após o estouro de "Geração Coca-Cola", uma das principais canções de protesto do rock brasileiro, a Legião Urbana está prestes a desbravar um novo horizonte comercial -ainda que, com a morte do líder Renato Russo, em 1996, a banda tenha deixado de existir oficialmente.
Os herdeiros de Renato e os músicos Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá fecharam com a gravadora EMI um acordo para distribuição nos meios digitais de todo o acervo do grupo, incluindo músicas, clipes, shows e entrevistas.
Para a EMI, trata-se de um contrato "inédito e inovador", que ilustra o dilema por que passa a indústria fonográfica em todo o mundo: sobreviver vendendo um produto que as pessoas conseguem obter de graça. O objetivo é recuperar o faturamento perdido na venda de CDs com a comercialização de conteúdo para operadoras de telefones celulares, que, com a chegada dos aparelhos de terceira geração -com grande capacidade de recepção, exibição e armazenamento de áudio e de vídeo-, passarão a vender muito mais do que ringtones.
"Evidentemente, estamos mirando o mercado de 30 segundos [tempo de duração dos ringtones, geralmente vendidos por até US$ 1, ou pouco mais de R$ 1,50]. Mas agora teremos um novo universo, músicas inteiras, clipes. Estamos estudando também o lançamento de pacotes especiais para diversas plataformas", diz José Pena, gerente de novas mídias da gravadora.
A idéia é, prioritariamente, estabelecer parcerias com as operadoras de celulares. Mas novos formatos de distribuição estão em estudo, como um pen drive especial para fãs. Além disso, serão oferecidos pacotes com gravações antigas, shows e até entrevistas -até o fim do ano começam a ser comercializados os primeiros produtos, como ringtones e download de músicas completas.
"Quando começamos, do ponto de vista da criação e expressão artística, queríamos fazer músicas que, de alguma forma, ficassem, sobrevivessem ao tempo. Esse sonho se concretizou", diz Villa-Lobos.
Protagonista de muitos desentendimentos com a EMI ao longo da trajetória do grupo, o guitarrista diz que a comercialização de acervos digitais pode ser uma saída para as gravadoras: "Traz uma onda de frescor que pode até, eventualmente, tirar a indústria do sufoco em que ela mesmo se colocou".

Mercado e Beatles
A negociação entre Legião e EMI durou mais de um ano. A dificuldade, para ambos os lados, é dimensionar o mercado: ninguém sabe ao certo o impacto que o advento dos celulares de terceira geração terá para a indústria do entretenimento.
Segundo Pena, o conceito do contrato proposto à Legião foi inspirado no que está sendo oferecido a Paul McCartney, Ringo Starr e aos herdeiros de John Lennon e George Harrison: com os Beatles, a negociação para digitalizar e comercializar o acervo da banda já dura mais de dois anos, sem sucesso.
Guardadas as devidas proporções, a Legião é a "mina de ouro" da EMI no Brasil. Ainda hoje são vendidos cerca de 300 mil CDs e DVDs a cada ano- um faturamento que chega a R$ 6 milhões. "Eles são grandes vendedores ainda hoje. Nosso desafio, no primeiro ano do projeto, será o de chegar ao menos perto desse faturamento que temos com a venda física dos CDs", reconhece Pena.