02/11 - Maranhão volta à rota da criminalidade

O Maranhão nos últimos tempos voltou a ser bombardeado por crimes de encomenda e roubo de cargas no interior e na capital. Empresários, sindicalistas e trabalhadores foram mortos em crimes com características de pistolagem, Enquanto bandos agem e levam cargas inteiras de secos e molhados, farinha, óleo comestível
e combustível. Hoje, o estado pouco lembra as ações implacáveis do Sistema de Segurança, nos anos 90, que conseguiu debelar o crime organizado e praticamente retirou o Maranhão da rota de criminosos de alta periculosidade.

Com o fraco desempenho demonstrado pela Secretaria de Segurança Cidadã, criminosos fogem de seus estados de origem e se abrigam no Maranhão, em busca de facilidade para suas ações. Os roubos de carga e crimes de encomenda voltaram a acontecer em grande escala e nada parece estar sendo feito para reverter este quadro.

No auge da administração do então secretário de Segurança Pública, Raimundo Cutrim, que permaneceu por cerca de 9 anos à frente da pasta, era comum ouvir comentários de que os criminosos podiam até vir para o Maranhão, mas para serem presos. Era fato. Motivada, a Polícia Civil não poupava esforços para conter o avanço da criminalidade.

Os bandidos que fugiam do sul e sudeste não encontravam mais abrigo no Maranhão. Fugitivos foram presos e quadrilhas debeladas. O roubo de carga parou depois que os chefes do crime organizado foram presos e levados à Justiça.

A impressão de que o Maranhão estava sendo passado a limpo pela Segurança Pública deixava a população tranqüila e crente na sua polícia.

Este novo tempo teve início quando os policiais passaram a ter acesso a informações importantes sobre como funcionava o crime organizado no estado. O trabalho acabou gerando cassação de deputados e prisão de empresários.

Arquivo

Em agosto de 1999, a polícia tinha em mãos um arquivo vivo. Era o quadrilheiro Jorge Meres, na época com 39 anos, natural de Nonai, no Rio Grande do Sul. Ele foi preso no município de Vitória do Mearim, por apropriação indébita e já tinha prisão preventiva decretada por envolvimento no caso da “carreta da Nortesul”, roubada em Santa Luzia, em 1995.

Alegando não ter mais nada a perder na vida, Meres resolveu contar tudo o que sabia acerca do suposto roubo da carreta, da qual era apontado como condutor. O homem morreu em janeiro de 2005, em casa, no São Cristóvão, de doença agravada pela ingestão de bebida alcoólica. Ele chegou a participar do programa nacional de proteção à testemunhas, mas o abandonou, alegando que não pretendia mais viver escondido e voltou para São Luís.

As informações fornecidas por Meres deram origem a vários inquéritos. Ele chegou a ser ouvido como testemunha-chave na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Narcotráfico, em Brasília, e na CPI do Crime Organizado, em São Luís. Em ambas, ele foi protegido por forte aparato policial, chegando a usar capuz para não ser reconhecido.


Importância

Ao prestar depoimento ao juízo de Santa Luzia, Jorge Meres afirmou que tinha conhecimento de muitos fatos importantes ligados a uma organização criminosa que agia em grande parte do Brasil. Ele chegou a trabalhar como segurança e motorista do advogado William Marques Sozza, de São Paulo, que teria ligação com a quadrilha
de Hildebrando Pascoal.

William Sozza tinha em seu nome cinco empresas criadas por Paulo César Farias, em Alagoas. Ele teria aproveitado a morte do empresário para trocar nomes e endereços das organizações, para reabri-las como se fossem suas.

Segundo Jorge Meres, somente Augusto César Farias, irmão de Paulo César, tinha conhecimento do fato, pois fazia parte do grupo e foi beneficiado com a morte do irmão. Estes fatos, porém, nunca ficaram provados.

Os chefes da organização criminosa seriam, conforme depoimentos de Jorge Meres, o ex-deputado José Gerardo, o advogado William Sozza, o ex-deputado alagoano Augusto César Farias, irmão de Paulo César Farias, e o ex-deputado acreano Hildebrando Pascoal.

Jorge Meres frisou ainda que o então deputado José Gerardo tinha, em São Luís, empresas que faziam lavagem de dinheiro ilícito, arrecadado pela organização nas operações criminosas desenvolvidas.

Como homem de confiança de William Sozza, Jorge Meres afirmou também que presenciou reuniões dos chefes da organização na qual discutiam sobre compras de droga, distribuição de armas, remessas de carretas para a Bolívia e sobre quem ia morrer ou sobreviver. Falavam ainda sobre divisão de lucros, realização de novas operações e os rendimentos.

Além dos chefes, Jorge Meres citou nomes de empresários que participavam indiretamente da organização e, de acordo com ele, patrocinavam as operações no Maranhão, Curitiba, Fortaleza, São Paulo, Pará, Maceió, Mato Grosso, Mato
Grosso do Sul, Goiânia e Distrito Federal. Eles davam apoio financeiro, político e judicial, além de fornecerem armas, drogas, carros e até avião, se necessário.

Freio

Nos depoimentos prestados na Corregedoria de Polícia Civil, Jorge Meres contou que o delegado especial Stênio Mendonça vinha investigando o então deputado José Gerardo e isso atrapalhava o desempenho do braço da organização criminosa no Maranhão. Com a descoberta da carreta na casa do deputado Francisco Caíca, que tinha ligação com os criminosos, Stênio Mendonça teria associado tudo à organização e por isso foi realizada uma reunião no sentido de “frear” o trabalho do policial.

Jorge Meres explicou em seus depoimentos como eram feitas as transações para o roubo de carretas e o envio delas para outro país. Citou nomes que auxiliavam a organização no interior do Maranhão e Pará e chegou a desenhar um mapa com as atribuições de cada um.

Todas estas informações foram apuradas e quadrilhas inteiras de roubo de carga foram desarticuladas pela polícia. Pararam os assaltos e pistoleiros que agiam por encomenda, optaram por deixar o Maranhão e buscar trabalho em outros estados.


O Estado