19/12 - Madonna abre apresentações em São Paulo.

Do momento em que o enorme cubo no centro do palco se abre em várias partes de onde sai uma fábrica do doces virtuais, revelando em seguida a cantora sentada em um trono cujo encosto tem a forma da letra "M", até a hora em que chega o final do espetáculo, com um grande "Game Over" no telão, Madonna não deixa ninguém ficar parado com sua "Sticky and Sweet". Se por um lado o repertório do show é essencialmente dançante, as referências à cultura pop presentes no roteiro são um espetáculo à parte.

A energia e boa forma da popstar, algo raro aos 50, aliadas à minúcia com que é cuidado cada detalhe técnico explicam boa parte do sucesso da mais nova turnê de Madonna, que passou por São Paulo na quinta-feira (18), levando 67 mil pessoas ao Estádio do Morumbi.

No quesito sonoro, músicas mais recentes - como "Candy shop" e "Beat goes on" - se misturam a clássicos do quilate de "Vogue" e "Like a prayer", alinhavando uma carreira de 25 anos.

E dá-lhe performance: não bastasse andar em um Rolls Royce conversível branco com seus dançarinos – ao todo, são 16 – até a ponta da passarela que se projeta do palco, a cantora pula corda durante "Into the groove", toca guitarra em "Human nature", se arrasta pelo chão em "Heartbeat", e solta um "te amo, Brasil!" em português antes de emendar "Miles way", anunciada como "uma canção muito triste".

Além de um conjunto de telões impressionantes – um deles uma estrutura cilíndrica localizada sobre a passarela, que em alguns momentos "engole" a cantora em pleno palco – e de elevadores que fazem com que ela simplesmente desapareça no final de certas músicas, as participações virtuais são outro ponto forte do show.

O primeiro convidado a aparecer é o rapper Pharrell Williams. Em seguida, Britney Spears se debate dentro de um elevador no vídeo que acompanha "Human nature". Mas é em "4 minutes", no último bloco da apresentação, que os queixos caem. Justin Timberlake surge em tamanho real, em telas que se multiplicam, em dueto com Madonna.

Se na primeira parte, dedicada à art deco dos anos 1920, Madonna surge com botas de cano alto e um figurino de melindrosa da Givenchy, na sequência ela viaja ao início de sua carreira em Nova York, nos anos 80, e homenageia o artista plástico Keith Haring, amigo da cantora morto em 1990.

Seus personagens coloridos fortemente inspirados no graffiti povoam os telões em "Into the groove", momento em que o DJ transforma o palco numa festa de hip hop. Tudo é tão bem-feito que quase não se nota o playback na cena em que a cantora pula corda; e o público parece não se importar com alguns deslizes vocais. Ainda mais porque o bloco termina com "Music", com todos entrando e saindo de vagões do metrô nova-iorquino.

Alguns a criticam por se levar a sério demais, mas Madonna é esperta o sufiente para brincar com isso no palco. Um dos momentos mais polêmicos – e divertidos – é em "She's not me", quando ela se depara com diferentes encarnações suas, presentes em videoclipes como "Open your heart", "Material girl", "Express yourself" e "Like a virgin".

Usando óculos Moschino em forma de coração e shorts vermelhos de boxeadora, ela contracena com duas loiras à Marilyn Monroe, em um número com direito a briga, xingamento (em português) e até beijo na boca.

O vídeo "Get stupid", no último bloco, completa a trinca sexo-política-religião. Enquanto Madonna prega a urgência de se salvar o planeta, imagens mostram um quebra-cabeças de personalidades, que vai de Hitler a Lennon, passando por Bono, Gandhi, Michael Moore e, é claro, o presidente recém-eleito Barack Obama. Mas logo o clima volta a ficar leve, e é olhando para suas raízes na dança que Madonna encerra o show: com muitos lasers ao som de "Give it 2 me", no maior estilo rave.