18/08 - Cultura Popular do Maranhão é forte e bem vista'', afirmou Ivan Ferraro.

A 8ª edição da Feira de Música do Ceará será aberta nesta quarta-feira (19) e vai até domingo (23), na capital cearense. Este ano ela terá, pela primeira vez, um tema central: "Tecnologia e suas relações com o universo musical". O assunto será abordado no 8º Encontro Internacional da Música, que integra a programação da Feira da Música com oficinas, painéis, workshops Além disso, o VIII Encontro estará no pavilhão de exposição da Feira com produtos da indústria de equipamentos, instrumentos, acessórios e serviços do mercado musical.

Com toda a programação gratuita, a Feira da Música é um grande espaço do mercado musical, com shows, rodadas de negócios, oficinas, conferências, lançamentos, exposição etc., representando um importante pólo de discussão, divulgação e intercâmbio da produção musical, da indústria fonográfica e das mais diversas áreas que compõem o mercado musical. Em sete anos, a Feira tem gerado soluções para a cadeia produtiva da música, contribuindo para a consolidação de uma rede nacional e abertura de um mercado internacional para a produção independente.

O Maranhão se fará mais uma vez presente representada pela Caravana Laborarte (cacuriá de Dona Teté, Tambor de Crioula e o show de Rosa Reis). A Feira é uma realização da Associação dos Produtores de Discos do Ceará (PRODISC) em parceria com o Sebrae-CE, numa promoção da Prefeitura de Fortaleza. Ela conta com o patrocínio do Banco do Nordeste e BNDES, o apoio cultural do Governo do Estado do Ceará, por meio da Secretaria da Cultura e Secretaria do Turismo, do Ministério da Cultura e do Ministério doTurismo.

Música Independente

A mostra musical da Feira reúne 60 bandas de todo o Brasil, que fazem pequenas apresentações, com duração de 40 minutos. A mostra é uma oportunidade dos músicos mostrarem seus trabalhos ao vivo e trocarem experiências com os outros participantes. As bandas serão divididas em cinco palcos, sendo eles o Palco Brasil Independente, Palco Instrumental, Palco SESC Iracema, Palco BNB e Palco Bom Mix.

Entrevista

A Feira de Música do Ceará, que já virou programa obrigatório no calendário cultural cearense, é coordenada por Ivan Ferraro. Ele conversou sobre a importância do evento para fomentação de discussões sobre o cenário da música independente no País, além de destacar a participação da cultura popular do Maranhão na Feira.

Pedro Sobrinho: Em oito anos de Feira de Música, você acha que deu pra atingir o foco que é o mercado independente?

Ivan Ferraro: Sim. Nosso intuito sempre foi organizar a música independente como um sistema, pensar esse mercado nacionalmente. Nesse sentido, em oito anos conseguimos evoluir bastante nessas discussões, não especificamente por causa da Feira da Música, mas tendo ela um papel importante nesses debates em torno do mercado de negócios e do potencial desse nicho de música, que passou a ser vista de forma diferente. Nós entramos com um formato diferente, levando em conta essa indústria independente. Hoje essa indústria está com uma articulação nacional completamente “capilarizada”, com “musculatura” suficiente para realmente, nos próximos oito anos, conquistar e desenvolver-se muito mais.

Pedro Sobrinho: A Feira da Música chega à sua oitava edição. Qual a avaliação até aqui e quais são as novidades deste ano?

Ivan Ferraro: A Feira da Música conseguiu atingir um patamar de visibilidade muito importante. As pessoas conhecem a Feira, o modelo dela, para que serve, usando isso como uma “máquina”, se aperfeiçoando a cada ano, entendendo e participando mais, o que tem ajudado bastante o mercado independente. Principalmente no âmbito regional nordestino.

Entre as novidades, vamos utilizar uma moeda complementar dentro da Feira, o Patativa Card, uma iniciativa aos moldes da economia solidária (como o Banco Palma de Fortaleza) e do Cubo Card (do espaço Cubo, de Cuiabá), que servirá para movimentar o mercado musical mesmo após a Feira. Também estamos propondo o gerenciamento diferenciado do lixo produzido ao longo do evento, uma parceria com o GERE (Grupo Especializado em Resíduos), contando com o apoio da SEMACE (Superintendência Estadual do Meio Ambiente), da ASCAJAN (Associação dos Catadores do Jangurussu), do ARAN (Associação dos Recicladores da Natureza) e do NEPPSAN (Núcleo de Estudos e Práticas Permaculturais do Semi-árido), que servirá de modelo para outros grandes eventos.

Além disso, estamos movimentando diversos coletivos, não só da música, mas também da moda, das artes cênicas e artistas em diversas áreas. Outro ponto importante é a questão do tema: este ano, as discussões irão girar em torno do tema Tecnologia e Música, problematizando as novas configurações do mercado fonográfico diante das possibilidades da internet etc. Para isso, contaremos com especialistas em diversas áreas (produção, distribuição, marketing etc.) que estão se diferenciando dentro desse cenário.

Pedro Sobrinho: Um dos propósitos da Feira é a internacionalização. Este ano, dois grupos gringos participam do evento. Um da Argentina e o outro de Cuba. Quais os critérios para escolha dos grupos que representarão os dois países latino americanos no evento?

Ivan Ferraro: A proposta da Feira não é a internacionalização. Mas a programação da Feira está aberta a grupos nacionais e internacionais. Já tivemos participações da Alemanha, de Angola, Cuba, Argentina… São países que vão tomando conhecimento da Feira e se interessando em participar. Mas nosso foco é nacional, é o mercado interno, é fazer com que a música independente no Brasil se estruture.

Pedro Sobrinho: O Maranhão este ano levará apenas a caravana do Laborarte representada pelo cacuriá, tambor de crioula, além de show de Rosa Reis. Foram apresentados trabalhos que fogem da linha folclórica e do regional? O que aconteceu com a música pop independente feita por maranhenses que ficou de fora da Feira?

Ivan Ferraro: O Maranhão não está levando “apenas” a Caravana Laborarte. A Caravana é um grupo enorme, com cerca de trinta pessoas. São três grupos: o Cacuriá de dona Teté, o Tambor de Crioula e a Rosa Reis. É uma participação bem forte e efetiva.

O que tem acontecido com os grupos de outros estilos é que temos recebido poucas inscrições e, evidentemente, a curadoria nacional acaba dando mais atenção aos grupos de cultura popular do Maranhão, que são muito fortes e muito bem vistos, vindo sempre com boas apresentações. É preciso que os outros grupos cresçam mais e consigam se apresentar de forma que atinjam a sensibilidade desses curadores.

Pedro Sobrinho: Em 2007, durante o Porto Musical, em Recife, você concedeu entrevista a uma emissora de rádio pernambucana afirmando que ‘hoje a música brasileira é nordestina”. Passaram-se dois anos, você ainda defende a teoria?

Ivan Ferraro: Não. Não teria a mesma resposta. Já faz muito tempo e as coisas vêm mudando. O Brasil vem fervendo inteiro. Hoje eu diria que a música brasileira é brasileira de todo o Brasil. Em todas as regiões existe muita música de qualidade, que hoje já começa ser percebida e entrar no circuito. Um circuito fora do eixo, mas que tem atingido o público que nos interessa. É importante que se diga que a música brasileira hoje não é só nordestina, é do Brasil todo. Em todas as regiões há focos de alto nível, de técnicas artísticas e de profissionalismo.

Pedro Sobrinho A grande palavra de ordem da Feira parece sempre ter sido a integração. O elo entre músicos, produtores, contratantes, fabricantes… Esse papel do evento é compreendido hoje no Ceará?

Ivan Ferraro: Com certeza hoje, depois de oito anos, as pessoas conseguem perceber exatamente como funciona a máquina, o evento, a ferramenta Feira da Música. Aos poucos temos percebido maior integração dos grupos, dos atores, dos agentes, das casas de espetáculo, dos músicos que percebem que precisam pensar na carreira, no negócio, na sua banda como uma pequena empresa.

A Feira tem proporcionado que os grupos comecem a pensar a carreira como negócio dentro da indústria do show business. Tivemos uma evolução, um ‘upgrade’ no nível dos músicos, principalmente os que já estão iniciando a carreira pensando dessa forma, o que é muito mais interessante. É mais difícil quebrar o sistema de um artista que viveu numa indústria de vinte anos atrás e que hoje tem que mudar completamente a forma de pensar. Os jovens têm mais facilidade de abrir os novos caminhos.

Pedro Sobrinho: Você também ocupa lugar de destaque na Associação Brasileira dos Festivais Independentes (Abrafin). Como a associação avalia essa ‘nova era dos festivais e das feiras de música independente’ no Brasil?

Ivan Ferraro: A Abrafin foi e é uma instituição importante por que fez com que nós nos juntássemos – “nós” os festivais, os focos no Brasil de movimento na música etc. Temos festivais independentes importantes em Goiás, Minas, Matogrosso, Ceará, Rio Grande do Sul, Pernambuco, Pará… em todo o Brasil somos quarentas festivais, e todo ano recebemos pedido de filiação à Abrafin. No último levantamento do IBGE, junto com o Ministério da Cultura, foram cadastrados mais de 500 festivais no Brasil.

A Abrafin é importante. Essa articulação política e também de gestão dessa coletividade tem sido exemplo. Abrafin tem estado à frente, puxando para que exista realmente um movimento nacional e não do eixo Rio-SP, - por isso um circuito fora do eixo. Queremos um pensamento sobre a música brasileira no mercado nacional. Esse é o nosso papel e a Abrafin está lá como ponta de lança, pois os festivais fazem o papel que as rádios tinham antes. Como essas bandas independentes não tocam nas rádios, elas tocam nos festivais. Elas têm que tocar nos festivais para as pessoas conferirem as músicas delas.

É muito importante que a gente entenda a Abrafin veio fazer a ligação de uma cadeia que não tinha muita estrutura. Como uma instituição ainda jovem, de apenas três anos, ela já tem uma articulação nacional bem estabelecida e parcerias bem fortes.