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Domingo, 07 Fevereiro 2021 18:33

CRÔNICA CARNICEIRA — ETAPA 1 | CORAGYPS ATRATUS: O ENCONTRO Destaque

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Urubus na estrada Urubus na estrada Costa Filho

ETAPA 1 - CORAGYPS ATRATUS: O ENCONTRO

Numa de minhas caminhadas, ia passando por um caminho, quando me deparei com um bando de aves. Eram dezenas delas. Estavam concentradas à beira da passagem. E não eram as comestíveis galinhas, os ágeis beija-flores ou os coloridos pavões, era um grupo de “Coragyps atratus”, os famosos urubus-de-cabeça-preta. Isso mesmo, esses que, com sua plumagem preta e pescoço rugoso já se fazem membros da nossa urbana paisagem. Estavam ali, no meio de meu caminho, todos donos do pedaço. Com efeito, o ambiente era mais deles do que meu. Eu era apenas um mero transeunte, enquanto eles, costumam ficar diariamente por ali, onde o povo vive a despejar lixo e dejetos carniceiros, apesar das placas de proibição. Agora eles estavam numa rua de piçarra pouco movimentada. Parei a pouca distância. Mas, é bom que se diga, parar a pouca ou a longa distância não faria muita diferença. Eles continuavam lá, teimosos e pesados. Então parei bem perto, na esperança de que eles esvoaçassem e eu seguisse livremente. Todavia, eles continuavam no meio, no seu banquete do puxa-puxa. Fiquei observando aquela arrumação. Era tal uma festa humana de traje a rigor. Todos com seus paletós pretos de peitos nus. Enquanto uns puxavam-puxavam, outros gorejavam à parte, se aproximavam, observavam de longe, pousavam no chão ou nalgum poleiro, e lá ficavam de asas abertas a tomar o sol da manhã. Estavam felizes e eu quase isso, ali de parte, já bem familiarizado com os onívoros. Só que eu tinha mais o que fazer. Digo, profissionalmente a fazer. Estava atrasado para a formação on line. Agora não tinha jeito, era eu ou eles. Alguém tinha que arredar do meio.

Enquanto pensava numa saída justa e democrática para ambas as partes, indeciso ainda se ia ceder ou feder, me veio à cabeça um adágio popular muito óbvio: “Urubus na carniça”. Era assim que mamãe se referia a nós, quando, famintos, aglomerávamos na hora do almoço ou quando sucedia algum acidente na rua, uma briga ou cousa assim. Também, quando vomitávamos por náusea ou por nojo, mamãe dizia depois do nosso alívio: “Vomitou que só urubu novo”. E nós, curiosos pela expressão, perguntávamos: “Por que urubu novo, mamãe?” Ela respondia que urubu novo engulha quando ver gente. E eu ficava imaginando essa cena miúda e fétida. Ao lado dessa aguçada imaginação, a ignorância do tema era minha grande aliada. E era ela quem ficava a instigar: Por que aqueles frangotes carniceiros se achavam tão mais importantes que as pessoas a ponto de engulharem? Muita petulância! Quem eram eles afinal? Na verdade, vim a saber depois, todos eles engulham como reação de afugentamento ou da própria fuga às ameaças.

O interessante da vida é que uma cousa, por simples que seja, pode nos levar a um mundo de lembranças, teorias e reflexões. E isso já estava me ocorrendo. Eu acabava de garimpar naquela podre situação algumas ponderações de que o leitor pode usufruir nesta crônica, conforme seu humor, sensibilidade, conhecimento, ideologia ou consciência. Algumas delas é o estigma de que o urubu é um animal seboso e abominável. Quanto ao “seboso”, ia me calar, mas como que um regurgitar de aprendizagem, me veio alguma lembrança dos tempos de escola sobre os hábitos dos urubus: eles passam parte do dia se limpando. Já o “abominável”, abominei essa ideia de imediato, pois esses necrófagos exercem uma função importantíssima na conservação do meio ambiente, limpando cerca de 95% das carcaças da natureza. Noutras palavras, são reais garis de penas, seletivos, fazendo um trabalho que nenhum humano gostaria de fazer: limpar carniças por aí a fora.

Pauso aqui para uma pergunta pertinente: O que os homens acham dos urubus?

_____ Próxima Etapa: 14.02.21. AGUARDEM! _____

(#Crônicas, #CostaFilho, #urubus 2021,fev.07)

 

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Lido 155 vezes Última modificação em Domingo, 14 Fevereiro 2021 18:15
Edgar Moreno

SOBRE O AUTOR DA COLUNA

Edgar Moreno é cronista e escritor bacabalense, heterônimo do poeta Costa Filho, membro da Academia Bacabalense de Letras. Em abril, estreou com a coluna “Cronicando...” no site Cuxá. Escreveu ou escreve em outros jornais e sites, publicando eventualmente em suas redes sociais.

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