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Domingo, 14 Fevereiro 2021 17:57

CRÔNICA CARNICEIRA — 2ª ETAPA | HOMENS E URUBUS: O EMBATE Destaque

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Urubus em Bacabal Urubus em Bacabal Costa Filho

Estávamos ainda lá, eu e os urubus, a disputar o mesmo caminho. Eu mergulhado mais em cogitações do que na cena. Mas precisava passar. Então, sacudi os braços para cima, e gritei: Xooouu! Qual nada! Poucos voos. Logo retornaram ao que lhes interessava. Isso me levou à reflexão de quando os homens são comparados aos urubus. Tomei atitude e arreguei pela beira da passagem. Fui-me, sem, no entanto, me desgrudar do tema, cogitando minhas próprias indagações: O que os homens acham dos urubus? E os urubus dos homens? E com efeito, as reflexões vieram:

É comum entre irmãos e colegas chamarem uns aos outros de “urubus”, como uma forma de afronta ou rebaixamento do outro através dessa espécie. Contudo, o que seria mais ofensivo: o homem ser chamado “urubu”, ou o urubu ser chamado “homem”? Quantas pessoas são vistas por nós como abomináveis e repugnantes, e mesmo assim nos propomos a suportá-las e entendê-las! Por que então não entenderíamos essas aves inofensivas e comprovadamente úteis?

Ao pesarmos na balança do bom senso, os urubus sobrevoam com folga a índole de certos humanos, deixando-os bem rasteiros na sua forma de pensar e agir. Senão vejamos: enquanto o homem suja, os urubus limpam; enquanto o homem joga lixo e luxo no meio ambiente, os urubus catam dejetos para lhes satisfazer a fome; enquanto os urubus contribuem com a higiene das cidades, muitos gestores e homens comuns não se importam com a limpeza e estética de seus logradouros e recintos; enquanto os urubus limpam a si e aos outros, certos humanos sujam a si e aos outros, ou mesmo uma população inteira; enquanto os urubus se mantêm todo o dia ocupados, muitos humanos preferem o ócio, a preguiça e o sedentarismo; enquanto os urubus planam seu voo em larga altura, há homens que rastejam na prisão de seus vícios e paixões; enquanto os urubus, nos seus voos tropicais, gastam pouca energia, há homens que vivem a desperdiçar sua própria energia e a dos outros; enquanto os urubus são sociáveis necrófagos, comendo animais mortos em conjunto, há homens que vivem se matando, movidos pela ganância e inveja; enquanto os urubus não adoecem com sua refeição pútrefa, o homem, com seu cardápio de luxo, pode matar-se pela própria boca; enquanto os urubus evitam a proliferação de doenças, o homem vive juntando males e morrendo deles; enquanto os urubus podem ver seu alimento a três mil metros de altura, há homens que não conseguem enxergar a um palmo do nariz; enquanto os urubus podem sentir o cheio de seu manjar a cinquenta quilômetros de distância; certos homens não conseguem sentir seu semelhante a cinco metros de si; enquanto os urubus são exóticos e inofensivo, o homem o repudia por achá-lo feio e nojento; enquanto os urubus são monogâmicos, mantendo fidelidade conjugal a vida toda, alguns humanos preferem a poligamia, com suas várias parcerias, muitas vezes sem poder mantê-las, ou contra a lei; enquanto os urubus ajudam a cuidar de seus filhotes, muitos humanoides abandonam ou matam seus próprios filhos; enquanto o urubu-rei nem liga para esse título, há homens que vivem se achando majestades, ostentando riquezas, luxo, poder e fama, às vezes, sem o bom senso dum urubu; enquanto o homem se acha vítima dos urubus, o próprio homem é, ao lado das cobras, seu principal predador; enquanto, enfim, os urubus são indiscutivelmente importantes à vida do homem, o homem se acha mais importante que os urubus, tendo-os como asquerosos e agourentos.

Não é breve a lista comparativa entre os “Cathartidae” e os “Homo sapiens”. E outra vez pauso para uma pergunta pertinente: O que os urubus acham dos homens?

(#Crônicas, #CostaFilho, #urubus 2021, fev. 14)

[Aguardem a próxima etapa].

 

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Lido 537 vezes Última modificação em Domingo, 14 Fevereiro 2021 18:18
Edgar Moreno

SOBRE O AUTOR DA COLUNA

Edgar Moreno é cronista e escritor bacabalense, heterônimo do poeta Costa Filho, membro da Academia Bacabalense de Letras. Em abril, estreou com a coluna “Cronicando...” no site Cuxá. Escreveu ou escreve em outros jornais e sites, publicando eventualmente em suas redes sociais.

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