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Quinta, 25 Março 2021 14:13

Precisamos Falar de Poesia

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Nos tempos sombrios em que vivemos é sempre bom falar de um poderoso antídoto contra esses tempos. Falo de poesia. Eu preciso falar de poesia. A poesia funciona como um “catalisador crucial para o diálogo e a paz”. Para os que não lembram, o dia 21 de março foi escolhido pela ONU, em 1999, para celebrar o Dia Mundial da Poesia. Lembremos, para sempre, dessa data. Todos nós, principalmente as crianças e os adolescentes, deveriam reservar um tempo diário para a instigante e iluminada leitura dos poetas. O poeta tem uma alma rara, escreve versos com raro lirismo, com raríssima paixão e marcados por um enfático humanismo. Dotados de uma intensa espiritualidade, mais do que nunca os poetas são necessários nesses tempos de pandemia. Afinal, como diz o escritor Frei Betto, “a poesia é a linguagem dos anjos, dos amantes e das crianças”. E mais, segundo ele, “fala mais à emoção que à razão, mais à alma que à cabeça. É a linguagem de Deus”. Provavelmente essa a razão de os fascistas odiarem poesia, já que eles não falam a linguagem de Deus que se expressa no amor aos seres e à vida. Poesia, mais do que uma palavra, é arrebatamento. É puro encantamento que se apodera de uma alma e de um coração, que só os poetas têm. Pensemos no que dizem os versos do poeta português Guerra Junqueiro: “Eu lembrei-me de vós, funâmbulos da Cruz,/Que andais pelo universo há mil e tantos anos,/Exibindo, explorando o corpo de Jesus”. Vejam quanta beleza na poesia da poetisa portuguesa Florbela Espanca: “Minh’alma, de sonhar-te, anda perdida/Meus olhos andam cegos de te ver/Não és sequer razão do meu viver/Pois que tu és já toda minha vida!”. E estes versos do mineiro Drummond, “Mundo mundo vasto mundo/se eu me chamasse Raimundo seria uma rima, não seria solução” (Poema de sete faces), que parecem querer homenagear este seu devoto de toda uma vida? Ah, meu generoso poeta, grato a ti a quem guardarei para sempre nos escaninhos de minha alma e memória! Como não reverenciar a poetisa goiana Cora Coralina, que somente tornou-se conhecida aos 75 anos por obra e graça de um outro grande poeta? Sim, exatamente ele, o nosso querido Drummond que deu luminosidade pública a uma poetisa tão singular. Olhem a força dos versos dessa poetisa: “Não te deixes destruir…/Ajuntando novas pedras e construindo novos poemas/Recria tua vida, sempre, sempre/Remove pedras e planta roseiras e faz doces/Recomeça.” E são tantos, tantos e outros tantos poetas…Pablo Neruda, de Ode a uma estrela; Manuel Bandeira com seu inesgotável poema Vou-me embora pra Parságada;  o mordaz Paulo Leminski de “ópios, édens, analgésicos/não me toque nessa dor/ela é tudo o que me sobra/sofrer vai ser a minha última obra”; a inesquecível Lispector, simplesmente Clarice (“sou o que quero ser, porque possuo apenas uma vida e nela só tenho uma chance de fazer o que quero…”); o poeta baiano Castro Alves (“benditos sejam os escritores, que escrevem livros e levam um povo a pensar”), como esquecer o seu pungente e épico poema Navio Negreiros (“mas que vejo eu aí…/Que quadro d’amarguras!/É canto funeral!.../Que tétricas figuras!.../Que cena infame e vil…/Meu Deus! Meu Deus!/Que horror!. 

E, para concluir o artigo, tenho que destacar o místico poeta lusitano Fernando eterno Pessoa. Aquele que já disse ser inúmeros em um. E que poderia ter muito bem escrito o prólogo ao Evangelho de João (1, 1-18): No princípio era o verbo/E o verbo estava em Deus/E o verbo era Deus (…) E o verbo se fez carne/E habitou entre nós. No entanto, através de seu heterônimo Álvaro de Campos escreveu o mais belo, entre os belos, poema: o monumental Tabacaria. Sonho, poeticamente, em ver um dia esse poema ser elevado à condição de patrimônio mundial. “Precisamos falar de pobreza”, de democracia e também de poesia. Poesia, poesia e mais poesia.

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Raimundo Silva

Sobre o colunista Raimundo Silva: Advogado aposentado e mestre em Filosofia Política pela Universidade do Minho, Portugal.

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