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Segunda, 13 Abril 2020 17:03

Sobre as moradas da memória bacabalense: Lúcia Correia e seus infinitos

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Estávamos no ano de 2011. Raramente eu navegava pela internet e ainda não sabia da grande potência que esse instrumento teria para mudar as relações e o cotidiano das pessoas, principalmente em terras bacabalenses. Nestas raras ocasiões, já surfando por alguns joguinhos e pelas notícias sobre Bacabal, acredito que, por descuido ou artimanha do destino, não sei ao certo, li uma notícia com este título “Bacabalense pede emprestada peruca da presidente Dilma para campanha peruca da cidadania”. Fiquei impactada. Pensei no quanto àquela mulher era corajosa por pedir a peruca da presidente emprestada. Desmanchando-me em curiosidade, senti o impacto da notícia, li a carta de Lúcia Correia e só pensei uma coisa neste momento: preciso conhecer essa mulher! No dia seguinte peguei a minha bicicleta e saí a sua procura. Chegando ao seu bairro recebi todas as instruções que me levaram a sua casa. Uma residência simples, mas muito acolhedora, que permanecia sempre aberta, pois as visitas eram constantes. Dona Lúcia em seus 46 anos de vida refletia sabedoria e um amor incomum pela vida. Na sua face e nas suas palavras, eu enxergava um ser de luz que, com toda certeza, estava só de passagem por entre nós, meros mortais. Quando entrei em sua residência, percebi que algumas senhoras estavam ao redor de sua cama, uma base de cimento alta, que estava coberta com um colchão e uma colcha, rezando o terço, um meio de fazer companhia para dona Lúcia. Tentei me apresentar baixinho e ela sorriu, pediu que eu pegasse uma cadeira e me juntasse às senhoras que já estavam quase finalizando a oração. Em todos os momentos que ali estive dona Lúcia sorria e conversava animadoramente. Fui tomada por uma forte emoção e me questionei: Meu Deus, como ela consegue ser tão forte? Dona Lúcia era tetraplégica e estava com câncer. Pedir a peruca da presidente emprestada foi o único meio que ela encontrou para chamar a atenção das autoridades para iniciar o seu tratamento. Quando me despedi daquela mulher, saí de sua casa chorando muito, na certeza de que voltaria, de que lutaria pela dádiva de sua vida. Nossa amizade começou neste dia e nos dias que estavam por vir se fortaleceu ainda mais. Conversávamos, refletíamos juntas sobre a vida, sobretudo as políticas públicas, tão precárias em nossa sociedade. Ainda tive o privilégio de representá-la na peça “Viver é adaptar-se”, de sua autoria, em conjunto com Zezinho Casanova, sentando-me em sua cadeira, a extensão do seu corpo, que a direcionou pelos mais belos caminhos.  Os dias seguiam o seu curso habitual e dona Lúcia iniciou o seu tratamento. Estava convicta de que tudo terminaria bem, mas infelizmente a vida que ela tanto amava nos pregou uma peça – e não era “Viver é Adaptar-se –, infelizmente. Dona Lúcia partiu. A sua missão havia finalizado e os nossos corações ficaram pequeninos, vazios. Em meus dezesseis anos de existência e falta de experiências, não conseguia aceitar a partida, era doloroso demais me despedir de um ser tão especial. Eu ainda não compreendia que dona Lúcia era infinita. Hoje, já com vinte e cinco anos de constante aprendizado, percebo claramente os seus infinitos espalhados em terras bacabalenses quando me deparo com aqueles que lutam pela sua existência na nossa selva de pedra, aqueles que desejam dias melhores e lutam para que sejamos mais humanos e unidos. Nestas pessoas eu enxergo nitidamente os ideais de dona Lúcia, que humildemente espalhou-se deixando pedacinhos do infinito de si mesma.

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Lido 472 vezes Última modificação em Sábado, 25 Abril 2020 10:51

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