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Terça, 02 Junho 2020 23:31

CARTA A ADELAIDE (NO ISOLAMENTO) Destaque

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Edgar escrevendo à Adelaide Edgar escrevendo à Adelaide Costa Filho

Terra das Bacabas, tarde de sábado, 09 de maio de 2020.

Minha doce e querida Adelaide,

Agora me ponho, literalmente, à beira duma cama, acomodado num banquinho simples a resolver algumas demandas da vida por meio das redes sociais, esse estilo tão usual por agora: “à la remoto”. Como sabes, e na França não estar a ser diferente, o mundo por esses tempos coexiste no isolamento e no distanciamento das pessoas. Coisa triste, minha Adé, pois quando Deus criou o homem, a única lei de distanciamento era a da árvore da vida, no meio do jardim. Mas convenhamos, de lá para cá, muitos Adões e inúmeras Evas nasceram e pecaram, fizeram sua história e morreram e, por conseguinte, modificaram a paisagem do Éden, que agora não é mais um paraíso, mas um cenário pandêmico duma guerra silenciosa e destrutiva. O mundo chora uma mesma dor coletiva e quase inexplicável, porém há de explicar isso algum dia.

Mas como dizia, cá estou no pé de minha cama, no isolamento do meu quarto a tocar a vida remotamente pelo celular. Quem diria que chagaríamos a esse ponto! E agora, ao me virar para o criado-mudo, vejo um prato servindo de bandeja, uma garrafinha d’água e dois copos de materiais e funções diferentes: para água e para chás. Neste cenário hostil e solitário, vejo ainda alguns livros, um termômetro e uns remédios, que te posso assegurar, não é cloroquina. Por aqui a resistência ao medicamento é ferrenha e discutível, de modo que ninguém se entende sobre o caso. Avalia tu mesma, Adé: o presidente é a favor, enquanto parte dos médicos também, e já outros segmentos maiorais não o são, nem liberam o uso da droga, a bendita droga da vida. E nessa “queda de braço”, pessoas inocentes vão perdendo a vida para essa nova doença, que me recuso a citar o nome.

Resta saber, Adé, quem no fim, estará certo ou errado, ou quem está agindo pensando em acertar ou mesmo protelar, por razões adversas e quaisquer. Só que até lá muitas vidas já se foram em meio a atos de dissensões e politicagens. Neste mundo ambicioso e cruel, nada pode ser descartado. No fim, o cenário é uma arena ideológica, onde cada um defende aquilo em que acredita, tudo isso num momento complexo de fragilização do povo, da saúde desse povo, e, consequentemente da sua vida, que coexiste diariamente na iminência da morte.

Na verdade, minha Adelaide, todo mundo sabe o motivo velado, mas não me cabe ficar tecendo tal ponto nesta nossa carta, que seria de amor, não de dor, esse problema tão fora do nosso mundo de sonhos, mas que termina atingindo o mundo de todo mundo, inclusive o nosso. Se já estávamos longe pela distância, agora ficar distantes nos chegou como um ato de amor. Ah, vida! Ah, mundo! Ah, minha doce Adé! Como o momento é efêmero! Como a flor é efêmera! Como a paisagem inteira é efêmera! Como a arte é efêmera! Como são efêmeras as circunstâncias, o homem, a vida, tudo cá entre nós, humanos.

Aqui faço uma pausa para comer alguma coisa. Minha consorte veio me trazer algo num potinho plástico. São pedaços de melão. Ela já saiu. Não pôde ficar por cautela. Já não posso beijá-la, nem abraçá-la, nem nada mais que ficar aqui nesta alcova com minha máscara, esse lenço que tomou de conta do mundo com sua variedade de cores e estilos, esse lenço que dum dia para outro se tornou o acessório sanitário mais comentado pela população mundial, a partir da China, como o sabes.  

O melão está doce e gostoso e, além de hidratar, espero que o fruto me sirva também de calmante para que hoje minha noite seja tranquila, já que ontem foi-me uma insônia só. Admiro-me que eu não tinha essas coisas e torço que seja apenas o resultado dalguma estafa ou mal-estar passageiro. Os bloquinhos de melão, a cada instante, diminuem na vasilha, de modo que só me restam dois. Tomo um deles, mas não o como logo. Aproveito para olhar pela janela do meu quarto e, ainda que seja dia, há pouco chuviscado, e agora aclarado, vejo que não é um dia daqueles que vão com a nossa cara, como as jovens tardes de domingo.

Não, por aqui a tarde vai morrendo triste, e com ela esse dia de nuvens negras e sem graça. O telefone toca. Não deve ser nada mais importante que tu, minha Adé. E não era mesmo, senão uma daquelas chamadas de telemarketing que nos tira a paciência. Mas não te aflijas disso, já bloqueei o número, apesar de que isso não seja jamais a solução, podendo virem a discar de outro número, mas é certo que já não mais atenderei.

Deixemos para lá tais golpes ou tentações comerciais. Cuidemos de nós, cá neste momento, que deveria ser somente nosso, mas não o é. Olho novamente à janela, enquanto degusto o penúltimo pedaço de “melon”, como dirias tu, com biquinho, em teu mavioso francês. Volto a olhar lá fora. Não é noite feita ainda na janela do tempo, mas o é no relógio humano. O momento traz a triste hora do anoitecer lembrando-me a cantiga “A hora do amor”, do nosso Agnaldo Timóteo, que, vê essa coincidência, é do ano em que nasci.

E é com canção assim, minha querida Adé, que me vem uma imensa saudade de tua presença, de teus abraços, de teus beijos e afagos, sem o receio de contágio ou algum medo que não seja o de me apaixonar cada vez mais e perdidamente por ti. Esse era, e ainda é meu gostoso e incurável medo.

Minha querida, confesso que institivamente a emoção me levou a passar a mão nos olhos, mas de imediato, tirei-as e me higienizei. Que coisa! Essa prática atualmente condenável pela vigilância sanitária, vem agora como a forma mais prática de esconder as lágrimas da saudade. E esta saudade me traz um breve calafrio. Minha pele está quente. Vou-me ver o que me diz o termômetro: trinta e sete graus e meio. Minha consorte me disse ser febre. E concordo com ela, Adé, mas penso que nessa temperatura há algo do teu calor e da tua distância. Contudo, minha querida, não serei um poeta teimoso, um ignorante de minhas dores e perigos à saúde. Já fui na mesinha de medicamentos. Mas não te preocupes exacerbadamente comigo, estou me sentido bem. O único sintoma evidente é essa febre oscilante, que se manifesta mais à noite. Já estive a sentir dores generalizadas leves e umas cinco tosses desde o dia 6 de maio à tarde para cá.

Sei que isso vem te deixar meio preocupada e curiosa se meu caso é pandêmico. Eu francamente não sei te responder, mas penso que não. Rogo ao nosso bom Deus que não seja. No mais, estou me informando junto ao sistema de saúde local, além de estar isolado por prudência. Ao que parece só se faz o teste seguramente a sete dias dos sintomas. Entretanto, sem descartar minha suspeição, penso que possa ser um quadro de estresse ou uma recaída de meus maus dias no ano passado. Em qualquer dos casos, sejamos otimistas e peçamos ao Criador que nos guarde de todos os males. Digo “nos guarde” pensando também em ti, na minha família, nos amigos e na comunidade mundial, em que todos estão necessitados da graça divina.

Sei, minha Adé, que estás a te guardar e a te proteger aí na Cidade Luz, mas, nunca é demais lembrar-te a tão conhecida frase “Fique em casa”, ou como no falar do teu elegante francês “Restez à la maison”.

O tempo passa e já me cobra outros quefazeres. Não que tu me enfades, mas porque, tu o compreendes: a vida não pode parar. Concluamos, pois, esta missiva com duas coisas boas: sintamo-nos juntinhos, por agora, mesmo distantes, e tomemos como brinde à vida, esse mingau de maisena trazido-me há pouquinho. Já se vê: com fastio é o que não estou.

Despeço-me aqui com meu abraço em teus braços, meu beijo em teus beijos.

Do teu

Edgar

 

P.S.: Salve! Salve! Minha Adé! Minha temperatura de agora baixou a 36,8°. Fico por aqui mais otimista e saudável.

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Lido 415 vezes Última modificação em Quarta, 03 Junho 2020 14:03
Edgar Moreno

SOBRE O AUTOR DA COLUNA

Edgar Moreno é cronista e escritor bacabalense, heterônimo do poeta Costa Filho, membro da Academia Bacabalense de Letras. Em abril, estreou com a coluna “Cronicando...” no site Cuxá. Escreveu ou escreve em outros jornais e sites, publicando eventualmente em suas redes sociais.

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