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Segunda, 12 Outubro 2020 13:15

Crônica para as crianças de ontem Destaque

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“Triste de quem não conserva nenhum vestígio da infância.” (Mário Quintana)

Andei voltando há algumas décadas da vida e cheguei a uma doce conclusão: o tempo de criança é simplesmente a mais gostosa e inesquecível fase da vida. Há quem diga que é a adolescência, a juventude, a maturidade, a velhice, outros consideram que é o agora, outros ainda, que é quando se tem paz, independência, ou quando a gente simplesmente não se importa com o que dizem de nós outros. Da minha parte, “eu fico com a pureza da resposta das crianças” e teimo em achar que a infância é o início da felicidade do ser humano e o palco de suas melhores lembranças, embora às vezes essas fiquem perdidas pelo caminho da vida. Tirante isso, são tantos os momentos singelos e marcantes, que é impossível classificar o mais doce, o mais louco, o mais fascinante, o mais desesperador, o mais especial, o mais besta... Quem não lembra aquela queda, aquela briga, aquela censura, aquele amiguinho, aquela tia da escola, aquele dia especial de festa? No fim, cada um traz suas próprias lembranças e todos se identificam felizes com esse tempo bom de outrora. Como já disse nosso menino Casimiro de Abreu: “A velhice tem gemidos — A dor das visões passadas; A mocidade — queixumes; Só a infância tem risadas!”.

Então, não há o que questionar. Acabou-se a fase dos porquês e não há poréns ou entretantos, só há uma verdade: o tempo de criança é o mais significativo e feliz da existência humana. O mais significativo e feliz. Desse jeitinho mesmo: no grau superlativo relativo de superioridade, como reza a gramática, ou como diria José Dias, em Dom Casmurro, de Machado de Assis, é “significabilíssimo” e “felicíssimo”.

Pode até não ter sido assim tão bom, mas quando a fase adulta nos bate à porta, a infância ressurge mais linda e saudosa, e passamos a recordá-la como um filme nostálgico em preto e branco, e, por isso mesmo, mais especial que o trágico e colorido filme do nosso hoje. É aí que nos vemos diante duma triste verdade: "Eu era feliz e não sabia".

O fato é que na infância nossas preocupações eram outras, bem singelas e imediatistas, como o medo de apanhar por ter quebrado uma xícara, o anseio de ter o brinquedo dos sonhos, a vontade de comer todos os sorvetes do mundo, o pavor de vacinas, [não, isso nunca acaba, apavora todas as idades], a alegria de vestir logo a roupinha nova, a sensação da descoberta de que existe “pé de arroz”, mas não existe “pé de carne”, entre outras coisitas que para um adulto significa apenas uma bobagem. Na verdade, isso é apenas uma bobagem de adulto, pois são essas cenas, essas pueris cenas que guardaremos no baú de nossas mais doces lembranças infantis e que, efetivamente, representam verdadeiros tesouros.

Há quem diga que recordar o passado é sofrer duas vezes, mas isso não se aplica aos tempos de criança. Defendo que reviver a infância nunca vai ser sofrimento; mas sim, uma nova chance de ser feliz e aprender sob a didática da inocência e da verdade.

Talvez não seja eu a pessoa mais indicada para falar de infância. Mas quem a teve plenamente? Fez tudo o que queria? Ignorou as limitações dos pais e da vida? Quem também nunca correu, tombou, caiu, chorou, levantou e seguiu sorrindo para a próxima brincadeira? Quem nunca se aglomerou no terreiro do vizinho para brincar de roda, de anel, de guerra, de desfile, de contar carros, de pega-pega, de liga-desliga, de contar histórias?

Cada adulto tem sua grandiosa historieta de menino. E isso basta para se falar sobre a infância. O mais importante é não deixar morrer a criança que trazemos dentro de nós. Sejamos adultos, mas não sejamos hipócritas e ingratos com a voz infantil do nosso coração, pois ela é ainda a cura para muitos dos nossos males. Por fim, não sejamos apenas grandes, sejamos grandiosos como o são as crianças, deixando de lado nossa birra e refletindo o que sugere o provérbio chinês: “O grande homem é aquele que não perdeu a candura de sua infância”.

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Edgar Moreno

SOBRE O AUTOR DA COLUNA

Edgar Moreno é cronista e escritor bacabalense, heterônimo do poeta Costa Filho, membro da Academia Bacabalense de Letras. Em abril, estreou com a coluna “Cronicando...” no site Cuxá. Escreveu ou escreve em outros jornais e sites, publicando eventualmente em suas redes sociais.

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