Segunda, 01 Março 2021
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Edgar Moreno

Edgar Moreno (19)

O dilema do caminho foi resolvido. Os urubus ficaram na sua carniça e eu segui meu percurso. Nesse trajeto, homens e urubus foram confrontados em sua utilidade e atitudes. Os urubus se mostraram bem notórios, enquanto os homens...

Surgiam ali novas cogitações, e o tema, já inevitável, ganhava asas para uma terceira etapa considerativa, agora entre urubus e políticos. Planava no ar não apenas uma cena de passagem no caminho ou conceitos comparativos, mas, um caso real e sério: a política e suas ramificações como o poder, o dinheiro, as vantagens, as moedas de troca, os subornos, os pactos, enfim, a corrupção e a hipocrisia.

“Ah, mas a política já passou!”, diria algum leitor desatento. Contudo, o bom leitor sabe que política nunca passa, que a boa política produz resultados benéficos, enquanto a politicagem, gera frutos nocivos. Assim, tais fatores não podem ficar isentos da análise e do questionamento popular e cidadão, afinal, o homem é político por sua natureza. Então continuemos com os urubus na carniça. E quem são os urubus? E a carniça? Ora, tudo muito óbvio. Ao observarmos as campanhas eleitorais, vemos na busca ferrenha pelo voto, uma cena semelhante à dos urubus na carniça. A bem da verdade vai além dos carnívoros. Os candidatos, literalmente, correm atrás dos eleitores nas periferias e lugares de difícil acesso, num puxa-puxa desenfreado e carniceiro. Para isso usam as garras típicas da espécie “homo politicus”, fazendo promessas, oferecendo vantagens, comprando votos, mentindo, enganando, chantageando, etc. Nessa luta, o que mais interessa é, obviamente, o voto, o passaporte para se galgar um cargo político, com o discurso ao bem social, quando na verdade é ao bem particular e do bando.

Nessa cena carniceira, por mais que não queiramos sê-la, a carniça somos nós, os eleitores, e nossa validade termina no mesmo dia da eleição. Então, a carniça volta a ser simplesmente gente, ou a palavra ganha um novo significado: gente-carniça ou gentinha. Quanto aos eleitos, esses passam, em sua maioria a ser verdadeiros reis-leões, levando consigo o rei na barriga. Apesar de a cena dos “urubus na carniça” ser bem característica do período eleitoral, a metáfora se enraíza para uma situação após a vitória. O próximo passo de mutação da carniça é que ela passa a ser o poder, as vantagens, as benesses, as trocas de favores, a corrupção, enfim, essas coisas que fazem da política uma carniça e uma carnificina social. Então vêm os acertos: quem será o líder? Quem ficará do lado do poder? Quem ficará do lado do povo? Quem receberá cargo A ou B? Quem será contratado? Quem será demitido? Quem será perseguido? Quem serão os fornecedores e licitatórios? Quem sobe e quem desce? Quem vai planar pelos ares do poder ou rastejar a amargura de ter votado contra o sistema?  

No cenário de homens e urubus, já transposto o caminho, conquistada a carniça, um cargo eletivo, uma função pública, é necessário acompanhar os representantes e, sobretudo, que esses cumpram seu papel com compromisso e hombridade. Negligenciar os deveres de um político eleito, é negar o direito do cidadão. O pós-eleição é uma luta importantíssima para a qual devemos marchar, visando a concretização legítima e transparência nas políticas públicas da saúde, educação, cultura, economia, infraestrutura, meio ambiente, agricultura, entre outros setores da sociedade que precisam tocar em frente seus projetos e ações em benefício do bem comum.

E pauso novamente para uma pergunta pertinente: Diante de fatos dessa espécie o que os “Cathartidae” acham do “Homo sapiens”? E do “Homo politicus”?

[Aguardem a 4ª e última etapa].

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Estávamos ainda lá, eu e os urubus, a disputar o mesmo caminho. Eu mergulhado mais em cogitações do que na cena. Mas precisava passar. Então, sacudi os braços para cima, e gritei: Xooouu! Qual nada! Poucos voos. Logo retornaram ao que lhes interessava. Isso me levou à reflexão de quando os homens são comparados aos urubus. Tomei atitude e arreguei pela beira da passagem. Fui-me, sem, no entanto, me desgrudar do tema, cogitando minhas próprias indagações: O que os homens acham dos urubus? E os urubus dos homens? E com efeito, as reflexões vieram:

É comum entre irmãos e colegas chamarem uns aos outros de “urubus”, como uma forma de afronta ou rebaixamento do outro através dessa espécie. Contudo, o que seria mais ofensivo: o homem ser chamado “urubu”, ou o urubu ser chamado “homem”? Quantas pessoas são vistas por nós como abomináveis e repugnantes, e mesmo assim nos propomos a suportá-las e entendê-las! Por que então não entenderíamos essas aves inofensivas e comprovadamente úteis?

Ao pesarmos na balança do bom senso, os urubus sobrevoam com folga a índole de certos humanos, deixando-os bem rasteiros na sua forma de pensar e agir. Senão vejamos: enquanto o homem suja, os urubus limpam; enquanto o homem joga lixo e luxo no meio ambiente, os urubus catam dejetos para lhes satisfazer a fome; enquanto os urubus contribuem com a higiene das cidades, muitos gestores e homens comuns não se importam com a limpeza e estética de seus logradouros e recintos; enquanto os urubus limpam a si e aos outros, certos humanos sujam a si e aos outros, ou mesmo uma população inteira; enquanto os urubus se mantêm todo o dia ocupados, muitos humanos preferem o ócio, a preguiça e o sedentarismo; enquanto os urubus planam seu voo em larga altura, há homens que rastejam na prisão de seus vícios e paixões; enquanto os urubus, nos seus voos tropicais, gastam pouca energia, há homens que vivem a desperdiçar sua própria energia e a dos outros; enquanto os urubus são sociáveis necrófagos, comendo animais mortos em conjunto, há homens que vivem se matando, movidos pela ganância e inveja; enquanto os urubus não adoecem com sua refeição pútrefa, o homem, com seu cardápio de luxo, pode matar-se pela própria boca; enquanto os urubus evitam a proliferação de doenças, o homem vive juntando males e morrendo deles; enquanto os urubus podem ver seu alimento a três mil metros de altura, há homens que não conseguem enxergar a um palmo do nariz; enquanto os urubus podem sentir o cheio de seu manjar a cinquenta quilômetros de distância; certos homens não conseguem sentir seu semelhante a cinco metros de si; enquanto os urubus são exóticos e inofensivo, o homem o repudia por achá-lo feio e nojento; enquanto os urubus são monogâmicos, mantendo fidelidade conjugal a vida toda, alguns humanos preferem a poligamia, com suas várias parcerias, muitas vezes sem poder mantê-las, ou contra a lei; enquanto os urubus ajudam a cuidar de seus filhotes, muitos humanoides abandonam ou matam seus próprios filhos; enquanto o urubu-rei nem liga para esse título, há homens que vivem se achando majestades, ostentando riquezas, luxo, poder e fama, às vezes, sem o bom senso dum urubu; enquanto o homem se acha vítima dos urubus, o próprio homem é, ao lado das cobras, seu principal predador; enquanto, enfim, os urubus são indiscutivelmente importantes à vida do homem, o homem se acha mais importante que os urubus, tendo-os como asquerosos e agourentos.

Não é breve a lista comparativa entre os “Cathartidae” e os “Homo sapiens”. E outra vez pauso para uma pergunta pertinente: O que os urubus acham dos homens?

(#Crônicas, #CostaFilho, #urubus 2021, fev. 14)

[Aguardem a próxima etapa].

 

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Sábado, 13 Fevereiro 2021 14:13

VOU PULAR O CARNAVAL

Escrito por

— Vou pular o carnaval.

— O quê?

— Vou pular o carnaval.

— Tá doido?

— Tô doido não, tô certinho.

— Mas que papo é esse de pular carnaval?

— Porque vou pular.

— Não vai não, estamos em tempo de pandemia.

— Por isso mesmo.

— Tá maluco, é?

— Tô muito é certo?

— Certo?

— Sim, e é isso que vou fazer.

— Mas tem decreto proibindo a partir de sexta-feira.

— Mais um motivo pra eu pular o carnaval.

— Pirou de vez, foi? Você pode ser preso!

— Por que eu seria preso?

— Ora por quê... porque não pode pular carnaval.

— Não só posso como devo. E você também deveria...

— Eu?! Cê tá louco? Ai, ai! Por que eu pularia?

— Porque é necessário pular. Todos deveriam pular também.

— Você só pode tá lelé da cuca...

— Nunca estive tão consciente.

— Tá é louco, isso sim.

— Tô não. E vou pular o carnaval.

— Não percebe que os casos de covid estão aumentando?!

— Mais um motivo para eu pular o carnaval.

— Até o hospital de campanha foi inaugurado.

— Mais um motivo para eu pular o carnaval.

— No Boletim de ontem traz 4.824 casos e 171 óbitos.

— Mais um motivo para eu pular o carnaval.

— Mas o que tá acontecendo com você?

— Nada. Só tô preocupado com isso tudo.

— Preocupado? Querendo pular carnaval?

— Exatamente. Foi uma forma que achei de contribuir...

— Fazendo aglomeração? Favorecendo o aumento de casos?

— Não, é exatamente o contrário.

— Pirou mesmo! Acabei de crer.

— Pirei não, só tô dizendo o que vou fazer.

— Mas você não pode, não deve, nem vai pular carnaval!

— Vou pular, sim! Eu posso, eu devo e vou pular este carnaval.

— Como vai pular carnaval, se não tem festa? Me explique.

— Pulando, simplesmente pulando.

— Por que não deixa pra pular quando a pandemia passar?

— Tem que ser agora. Depois não tem mais como pular.

— Meu Pai do Céu! Por que você insiste nisso?

— Porque é necessário. É preciso pular o carnaval.

— Você pode se dá mal com essa atitude insensata.

— Nunca! Pelo contrário, é uma ideia completamente sensata.

— Mas como? Você está indo de encontro a lei e à saúde pública.

— Prelo contrário, estou muito a favor da lei e da saúde pública.

— Agora quem tá louco sou eu. Desista disso, por favor.

— Não posso, se eu deixar de pular, aí sim, posso tá prejudicando... Então, não posso deixar de pular.

— Mas o que você tá dizendo?

— Tô dizendo que vou pular este carnaval.

— Não vai pular não! Ouve a voz do teu amigo.

— Ora, se pulei o ano passado, o ano ‘trasado, o ano retrasado...

— Eu também pulei. E daí?

— E daí que em 2021 vou pular também. Se pulei os carnavais anteriores, este é que vou pular mesmo. Agora é bem mais necessário que eu pule, que tu pules, que nós pulemos, que vós puleis, que eles pulem, que todos pulemos.

— Isso só pode ser uma pegadinha, um sonho, uma loucura...

— Não é loucura, nem nada disso, é sensatez e consciência.

— Como, sensatez e consciência? Pulando carnaval na pandemia?

— Exatamente, pulando o carnaval da pandemia.

— Não dá pra acreditar! Você não pode fazer isso.

— Tanto posso, quanto devo, quanto vou. Já até comprei minha fantasia.

— Fantasia? Tá brincando!

— Tô falando sério.

— Como vai pular carnaval sem blocos, sem amigos, sem festas? Me explique.

 

E o amigo pulador, mostrando uma máscara, um calendário e um frasco de álcool em gel, respondeu-lhe sorrindo, ao tempo em que apontava para o interior de sua casa:

 

— Assim, veja! Vou pular esta data carnavalesca no meu calendário, vou pôr esta máscara, passar gel e água corrente nas mãos, entrar em casa e só reaparecer na quarta-feira de cinzas para ir ao trabalho.

 

O outro apenas riu, querendo ao mesmo tempo matá-lo e abraçá-lo, mas lembrou-se que eram verdadeiros amigos de resenhas.  

 

*(Costa Filho, Crônicas da pandemia, 2021, fev ,12)

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#carnaval #pandemia #crônica #cronicasdapandemia #CostaFilho #literaturabacabalense

 

 

 

 

 

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ETAPA 1 - CORAGYPS ATRATUS: O ENCONTRO

Numa de minhas caminhadas, ia passando por um caminho, quando me deparei com um bando de aves. Eram dezenas delas. Estavam concentradas à beira da passagem. E não eram as comestíveis galinhas, os ágeis beija-flores ou os coloridos pavões, era um grupo de “Coragyps atratus”, os famosos urubus-de-cabeça-preta. Isso mesmo, esses que, com sua plumagem preta e pescoço rugoso já se fazem membros da nossa urbana paisagem. Estavam ali, no meio de meu caminho, todos donos do pedaço. Com efeito, o ambiente era mais deles do que meu. Eu era apenas um mero transeunte, enquanto eles, costumam ficar diariamente por ali, onde o povo vive a despejar lixo e dejetos carniceiros, apesar das placas de proibição. Agora eles estavam numa rua de piçarra pouco movimentada. Parei a pouca distância. Mas, é bom que se diga, parar a pouca ou a longa distância não faria muita diferença. Eles continuavam lá, teimosos e pesados. Então parei bem perto, na esperança de que eles esvoaçassem e eu seguisse livremente. Todavia, eles continuavam no meio, no seu banquete do puxa-puxa. Fiquei observando aquela arrumação. Era tal uma festa humana de traje a rigor. Todos com seus paletós pretos de peitos nus. Enquanto uns puxavam-puxavam, outros gorejavam à parte, se aproximavam, observavam de longe, pousavam no chão ou nalgum poleiro, e lá ficavam de asas abertas a tomar o sol da manhã. Estavam felizes e eu quase isso, ali de parte, já bem familiarizado com os onívoros. Só que eu tinha mais o que fazer. Digo, profissionalmente a fazer. Estava atrasado para a formação on line. Agora não tinha jeito, era eu ou eles. Alguém tinha que arredar do meio.

Enquanto pensava numa saída justa e democrática para ambas as partes, indeciso ainda se ia ceder ou feder, me veio à cabeça um adágio popular muito óbvio: “Urubus na carniça”. Era assim que mamãe se referia a nós, quando, famintos, aglomerávamos na hora do almoço ou quando sucedia algum acidente na rua, uma briga ou cousa assim. Também, quando vomitávamos por náusea ou por nojo, mamãe dizia depois do nosso alívio: “Vomitou que só urubu novo”. E nós, curiosos pela expressão, perguntávamos: “Por que urubu novo, mamãe?” Ela respondia que urubu novo engulha quando ver gente. E eu ficava imaginando essa cena miúda e fétida. Ao lado dessa aguçada imaginação, a ignorância do tema era minha grande aliada. E era ela quem ficava a instigar: Por que aqueles frangotes carniceiros se achavam tão mais importantes que as pessoas a ponto de engulharem? Muita petulância! Quem eram eles afinal? Na verdade, vim a saber depois, todos eles engulham como reação de afugentamento ou da própria fuga às ameaças.

O interessante da vida é que uma cousa, por simples que seja, pode nos levar a um mundo de lembranças, teorias e reflexões. E isso já estava me ocorrendo. Eu acabava de garimpar naquela podre situação algumas ponderações de que o leitor pode usufruir nesta crônica, conforme seu humor, sensibilidade, conhecimento, ideologia ou consciência. Algumas delas é o estigma de que o urubu é um animal seboso e abominável. Quanto ao “seboso”, ia me calar, mas como que um regurgitar de aprendizagem, me veio alguma lembrança dos tempos de escola sobre os hábitos dos urubus: eles passam parte do dia se limpando. Já o “abominável”, abominei essa ideia de imediato, pois esses necrófagos exercem uma função importantíssima na conservação do meio ambiente, limpando cerca de 95% das carcaças da natureza. Noutras palavras, são reais garis de penas, seletivos, fazendo um trabalho que nenhum humano gostaria de fazer: limpar carniças por aí a fora.

Pauso aqui para uma pergunta pertinente: O que os homens acham dos urubus?

_____ Próxima Etapa: 14.02.21. AGUARDEM! _____

(#Crônicas, #CostaFilho, #urubus 2021,fev.07)

 

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Domingo, 17 Janeiro 2021 22:54

CARTA A ADELAIDE EM 17-01-2021 – UMA NOVA DÉCADA

Escrito por

Tarde de domingo, XVII-I-MMXXI

 

Minha doce e longínqua Adelaide,

 

A priori quero me retratar do termo “longínqua”, escrito aqui de ímpeto e sem candura, ainda que sensato, pois mesmo que longe fisicamente, estás sempre dentro do meu coração, tão mais perto quanto possas imaginar. Disso sei que sabes e muito bem, e bem mo compreendes.  

Agora, por um momento, me vejo agarrado à linha do tempo e noto que estamos no limiar de uma nova década, a terceira do século XXI, começada em 01.01.2021, ciclo a concluir-se em 31.12.2030. Até lá, minha Adé, temos muito a nos amar, a escrever... cousas que muito nos identificam e que somente a natureza em sua formosura, sabedoria e romantismo nos pode compreender.

Esta nova década, de repente me veio atiçar a lembrança de algo muito significativo entre nós: nossas cartas. Isso mesmo, as Cartas de Edgar à Adelaide, essa forma de comunicação tradicional e nobre que teimamos em manter para documentar nosso amor e sentimentos, nossos achismos e filosofias, nossa caligrafia a punho e papel a gosto, nossa marca, enfim.

Ah, minha querida, pudera as missivas serem nossas eternas companheiras, face a um mundo cada dia mais moderno e robótico, um tempo que rouba as mais singelas originalidades e as joga frente às deformações hodiernas. Não, minha Adé, não somos robôs, nem nunca seremos. Por isso, escolhemos as cartas para nelas eternizarmos nosso amor e nossa história, doutro modo não nos contaminar da virtualidade exacerbada, que viraliza entre os homens, tornando-os não raro sem alma e sentimentos.

Não queremos isso para nós, minha doce Adé! Nossas almas e sentimentos hão de reinar livres na escrita de nossas missivas enquanto assim pudermos. E assim queremos, logo eu que sou um tanto resistente às mídias, só aderindo tardiamente ou por força maior, e de igual modo tu, em tua maneira adelaidiana de convivência entre o moderno e o tradicional, afinal não somos simplesmente aldeotas; somos nobres e finos, sobretudo nas coisas do coração.

Mas tornando às cartas no tempo, elas já vazam a casa de uma década, posto que, salvo me engane, começaram por volta de 2009, quando já aí estavas, na Europa dos teus sonhos, e eu cá, a te merecer nosso amor. Isso merece comemoração: Palmas! Palmas, minha Adé! Abraços e beijos remotos!

No mais, o que de fato importa é que somos um do outro, com ou sem distanciamento, em função da própria distância ou da pandemia, que segundo noticiam, já consta em segunda onda também por aqui no Brasil, sobretudo em Manaus, a porta da nossa bela e tão cobiçada Amazônia. Mas não falemos de pandemia ou de Amazônia, falemos de nós, de nossa vida, do nosso amor, de nossas cartas.  

Se, pois, esta missiva não nos serve como comemorativa de dez anos, o é com efeito estreante da terceira década, isto é, nossa primeira carta de 2021. Digo nossa porque sem tu, minha Adé, jamais existiriam tais escritos, posto que és deles a grande inspiração e a doce destinatária.   

Vê, tu, minha querida, a manhã deste domingo veio com sol, e mais tarde o tempo foi fechando até chover razoavelmente farto. Já agora, às 17:05, continuam a cair gotas grossas, mas fracas sobre o meu telhado, cousa que me faz notar que tenho uma casa, e mais que isso, um lar.

Mas creio que essas questões meteorológicas não definem muito essa vontade de escrever. Talvez a defina o próprio dia, que sendo domingo, me chega muito mais propício para certas criações, como a escrita. 

Talvez por isso é que hoje, me tenha vindo uma inexplicável vontade de escrever alguma coisa, embora não soubesse o quê, nem a quem, embora ontem mesmo tenha eu e um comparsa das Letras, composto um poema e digitado um texto de Naftáli Atsoc, um salmista moderno ainda incógnito a quem costumo ler. Agora posso compreender: era meu coração inflamado pela tua saudade. 

Pois cá estou, cheio desse sentimento, transbordante feito o champanhe na taça. Mas digo-te, como em francês diria nossa Edna Frigato: Le champagne français ne me satisfait pas, quand j'ai soif de toi.” (Champagne francês não me satisfaz, quando minha sede é de você).

Já até suponho, minha querida Adelaide, qual seria tua resposta. Ei-la, pois, buscada que foi de Anna Flávia Schmitt Wyse Baranski: Lire que tu me manques apparaît dans le toit de ta bouche comme une bulle de champagne. Tu me manques beaucoup - il y en a beaucoup ... (Ler que você sente a minha falta estala no céu da boca tal qual uma borbulha de champagne. Saudades não me faltam - sobram...)

Essa saudade, que não transparece outra cousa senão o nosso amor, até me faz esquecer da minha breve lista de notícias para te deixar a par de como vão as cousas por esse Brasil, por esse Maranhão e por esse Bacabal. Contudo, vejo que isso já não se me parece tão propício, talvez por força desses tempos tão difíceis, que nos tiram o sossego, estressam o corpo, corroem a alma e frustram relações. Então, minha Adé, não falemos de pandemia, pois que isso puxa a política; e a política puxa a corrupção; e a corrupção, a injustiça; e a injustiça, a dor, a miséria, a morte...   Fiquemos com a vida, com as cartas, com o champanhe e o nosso amor.

No mais, o tempo sempre foi e assim o será: favorável e desfavorável; para uns, bom, para outros, péssimo; a uns, um paraíso, a outros o próprio inferno... Nem o tempo, nem a vida, nem nada, nunca há de ser igual a todos. Só não percamos nossa fé, pois que ela é um dom de Deus.         

E para não terminarmos sem comemoração, concluamos com o que disse Napoleão Bonaparte: Champagne! Dans la victoire vous le méritez, dans la défaite vous en avez besoin (Champanhe! Na vitória você o merece, na derrota você precisa).

 

Com carinhos do teu

Edgar

 

 

Post Scriptum: Quanto à nova década, como entraste? Eu, na igreja com a família.

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Sexta, 01 Janeiro 2021 15:10

COVID-19: UM INFELIZ ANIVERSÁRIO

Escrito por

Trinta e um de dezembro é uma data negativamente marcante para a humanidade. Faz exatamente um ano do surgimento do Novocoronavírus, que ocasionou a atual pandemia a qual já ceifou a vida de mais de 1 milhão e 800 mil pessoas pelo mundo. Isso nos leva a considerar o fato como um infeliz aniversário dessa doença contagiosa, a covid-19, que continua a assustar a comunidade mundial, espalhando medo, morte, ganância, jogos de interesses, conflitos e outros males de ordem físico-biológica, psicológica, ético-moral, etc.

A princípio foi chamado de vírus da China, vírus de Wuhan ou vírus chinês por ter surgido na China, especificamente na cidade de Wuhan, na província de Hubei, através de pessoas que tiveram alguma associação a um mercado de frutos do mar, segundo divulgado pelo governo chinês.

A primeira vítima foi um senhor de 61 anos, que faleceu de parada cardíaca em 09 de fevereiro com sintomas de falta de ar e pneumonia grave. Já então havia 41 pessoas infectadas. Daí em diante, os casos só aumentaram e a doença se proliferou rapidamente por todos os continentes, levando a OMS a declarar como pandemia em 11 de março.

Científica e provisoriamente o vírus foi nomeado pela OMS de 2019-nCoV, depois SARS2-Ncv, e por fim, SARS-CoV-2, baseado em outro coronavírus.

Como doença foi nomeado pela OMS de "covid-19". Essa medida visa a que o vírus não seja associado ao lugar de origem, no caso a China, como ocorreu com outros vírus como o da "gripe espanhola" (associado à Espanha), "gripe suína" (porcos), "gripe do frango", etc.

Todavia, o "vírus chinês" sempre levantou polêmica em torno das causas e motivos de sua disseminação. Fala-se que foi criado em laboratório e que por trás da doença há ideologias de poderio econômico e interesses os mais diversos. Segundo Luc Montagnier, vencedor do Nobel de Medicina de 2008, o coronavírus SARS-CoV-2, causador da covid-19, foi criado em um laboratório de Wuhan, na China. “A história de que ele surgiu em um mercado de peixes é lenda”, diz. Premiado em 2008 com o Nobel pela descoberta do vírus HIV nos anos 1980, Montagnier disse que o laboratório da cidade de Wuhan se especializou nesse tipo coronavírus desde o início dos anos 2000 e, apesar de ser um local de alta segurança, teria deixado escapar a nova cepa do vírus.

Criado em laboratório ou não, oriundo ou não dos frutos do mar, o vírus é uma realidade. Isso é fato. Um fato que ganhou força pandêmica, suplantando as estatísticas das demais doenças e epidemias, um vírus silencioso que tem sacudido as estruturas da ciência, do poder econômico, político e social.

A corrida pela cura, com a criação e comercialização de vacinas é apenas uma variante dessa novela dramática. A doença, desde o seu início tem mudado hábitos, proporcionado o aumento do consumo de produtos e serviços ligados à doença, e com isso, o ágio de preços, a busca desenfreada pelo lucro. Enquanto os governos discutem a questão, o desentendimento se agrava em torno do assunto nas diversas esferas de administração e convivência. Os cofres governamentais secam diante dos auxílios e despesas inesperadas, gerando conflitos os mais diversos, enquanto alguns simplesmente torcem pelo colapso em nome do poder. Por outro lado, políticos corruptos usaram e vão usando de má fé, desviando as verbas da covid-19, negligenciando direitos e deveres para com o povo e a moralidade, contribuindo para a catástrofe pandêmica. Tudo isso, sem falar nos milhares de entes queridos mortos ou matados em nome da doença, enterrados às pressas e sem a presença de seus parentes. Sem detalhar aqui cada dor, cada medo, cada distanciamento, cada perda, cada saudade, cada sofrimento e a angustiosa interrogação: Quando isso vai acabar?

Fiquemos por aqui com nossa própria reflexão.

Que se vá a covid de 2019 e venha o 2021 "com vidas" saudáveis e renovadas.

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Domingo, 22 Novembro 2020 23:57

DÓ RÉ MI FÁ SOL LÁ SIM, O DIA É DO MÚSICO

Escrito por
NO DIA DO MÚSICO, nossa homenagem a todos os músicos, em especial aos músicos, musicistas, produtores, compositores, intérpretes, bateristas e todos os -istas ligados à música bacabalense.
Como sabemos, Bacabal respira música e poesia, duas vertentes que se ligam pelo ritmo, pela rima, pela forma, pela mensagem e outras formas artísticas ou de realização.
Para quem esqueceu, a intimidade de Bacabal com a música não é de hoje, é uma tradição que atravessa gerações. A criação da Banda Santa Cecília pelo maestro e cartorário Almir Garcez Assaí, oficializa com louvor a presença da música em nosso meio. Por sua vez, a Escola de Música Almir Garcez Assaí (EMAGA) tem uma trajetória de altos e baixos, mas no fim, gloriosa, tendo já formado centenas de discípulos espalhados pelo mundo a fora.
A isso se somam os corais e vocais das igrejas, os shows aqui realizados por grandes nomes da música local, nacional e internacional, os festivais oficiais e escolares, que revelaram grandes nomes da MPBac, os aprendizes que se tornaram mestres, os tantos clubes, bares e casas de shows, os variados eventos que só se dão através da música, a exemplo do carnaval, das festas juninas, do Bacabal Folia, da Paixão de Cristo, do Natal, entre outros.
São muitos os nomes que bem nos represetam em seus mais diversos estilos e funções musicais, que para não incorrer em injustiça deixo de citar nomes para lembrar alguns trabalhos como Os Canários do Norte, os LPs Nossa Voz I e II, Papete, nosso ícone em nível internacional, as bandas Brito Som Seis, Carlos Miranda Show, The Blives, Los Magos, Sambinha e Cia, entre outras.
Sem sombra de dúvida, Bacabal é uma cidade privilegiada e reconhecida musicalmente por sua performance musical de boa qualidade.
Quem gosta de uma boa música sabe que não é preciso ir longe para encontrar poéticos compositores, afinados intérpretes e talentosos musicistas, quer no estilo solo, dupla, trio ou um grupo musical inteiro.
Resta-nos brindar ao som de nossas próprias notas musicais por esse Dia do Músico, esse alguém que sabe muito bem o valor da música em nossa vida.
Parabéns, a cada um de vocês, individualmente!

 

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Segunda, 12 Outubro 2020 13:15

Crônica para as crianças de ontem

Escrito por

“Triste de quem não conserva nenhum vestígio da infância.” (Mário Quintana)

Andei voltando há algumas décadas da vida e cheguei a uma doce conclusão: o tempo de criança é simplesmente a mais gostosa e inesquecível fase da vida. Há quem diga que é a adolescência, a juventude, a maturidade, a velhice, outros consideram que é o agora, outros ainda, que é quando se tem paz, independência, ou quando a gente simplesmente não se importa com o que dizem de nós outros. Da minha parte, “eu fico com a pureza da resposta das crianças” e teimo em achar que a infância é o início da felicidade do ser humano e o palco de suas melhores lembranças, embora às vezes essas fiquem perdidas pelo caminho da vida. Tirante isso, são tantos os momentos singelos e marcantes, que é impossível classificar o mais doce, o mais louco, o mais fascinante, o mais desesperador, o mais especial, o mais besta... Quem não lembra aquela queda, aquela briga, aquela censura, aquele amiguinho, aquela tia da escola, aquele dia especial de festa? No fim, cada um traz suas próprias lembranças e todos se identificam felizes com esse tempo bom de outrora. Como já disse nosso menino Casimiro de Abreu: “A velhice tem gemidos — A dor das visões passadas; A mocidade — queixumes; Só a infância tem risadas!”.

Então, não há o que questionar. Acabou-se a fase dos porquês e não há poréns ou entretantos, só há uma verdade: o tempo de criança é o mais significativo e feliz da existência humana. O mais significativo e feliz. Desse jeitinho mesmo: no grau superlativo relativo de superioridade, como reza a gramática, ou como diria José Dias, em Dom Casmurro, de Machado de Assis, é “significabilíssimo” e “felicíssimo”.

Pode até não ter sido assim tão bom, mas quando a fase adulta nos bate à porta, a infância ressurge mais linda e saudosa, e passamos a recordá-la como um filme nostálgico em preto e branco, e, por isso mesmo, mais especial que o trágico e colorido filme do nosso hoje. É aí que nos vemos diante duma triste verdade: "Eu era feliz e não sabia".

O fato é que na infância nossas preocupações eram outras, bem singelas e imediatistas, como o medo de apanhar por ter quebrado uma xícara, o anseio de ter o brinquedo dos sonhos, a vontade de comer todos os sorvetes do mundo, o pavor de vacinas, [não, isso nunca acaba, apavora todas as idades], a alegria de vestir logo a roupinha nova, a sensação da descoberta de que existe “pé de arroz”, mas não existe “pé de carne”, entre outras coisitas que para um adulto significa apenas uma bobagem. Na verdade, isso é apenas uma bobagem de adulto, pois são essas cenas, essas pueris cenas que guardaremos no baú de nossas mais doces lembranças infantis e que, efetivamente, representam verdadeiros tesouros.

Há quem diga que recordar o passado é sofrer duas vezes, mas isso não se aplica aos tempos de criança. Defendo que reviver a infância nunca vai ser sofrimento; mas sim, uma nova chance de ser feliz e aprender sob a didática da inocência e da verdade.

Talvez não seja eu a pessoa mais indicada para falar de infância. Mas quem a teve plenamente? Fez tudo o que queria? Ignorou as limitações dos pais e da vida? Quem também nunca correu, tombou, caiu, chorou, levantou e seguiu sorrindo para a próxima brincadeira? Quem nunca se aglomerou no terreiro do vizinho para brincar de roda, de anel, de guerra, de desfile, de contar carros, de pega-pega, de liga-desliga, de contar histórias?

Cada adulto tem sua grandiosa historieta de menino. E isso basta para se falar sobre a infância. O mais importante é não deixar morrer a criança que trazemos dentro de nós. Sejamos adultos, mas não sejamos hipócritas e ingratos com a voz infantil do nosso coração, pois ela é ainda a cura para muitos dos nossos males. Por fim, não sejamos apenas grandes, sejamos grandiosos como o são as crianças, deixando de lado nossa birra e refletindo o que sugere o provérbio chinês: “O grande homem é aquele que não perdeu a candura de sua infância”.

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No dia 12 de agosto, é comemorado o Dia Nacional das Artes. E quando se fala em Artes, se fala em cultura; quando se fala em cultura, se fala em povo; quando se fala em povo, se fala em produção e realização cultural, pessoal e comunitária; e quando se fala em realização cultural, vêm-nos à mente um conjunto de atividades artísticas dos mais variados tipos como o teatro, a pintura, a música, a literatura, a dança, o cinema, a fotografia, o artesanato, a cerâmica, a arquitetura, o circo, a televisão, as comunicações, entre outros formatos que revelam a criatividade, o talento e o esforço do ser humano quando a palavra-chave é criar.
Esse conjunto de imagens que enchem os olhos de qualquer artista e até dos leigos da arte, nos leva a lembrar de produções artísticas como o sorriso de "Monalisa", de Leonardo Da Vinci e dos quadros do bacabalense Roberto Lago; de "O pequeno Príncipe", de Antoine Exupéry e das poesias dos imortais da Academia Bacabalense de Letras; da "5ª Sinfonia", de Beethoven e da tocante música "Sementes de um poeta", do nosso Assis Viola; da Torre Pizza, na Itália e da nossa singela "Vila Maria" em frente à prefeitura; do cinema mudo de Charlie Chaplin e de "O Caminho Proibido", de Rogê Francê; do Cristo Redentor, no Rio de Janeiro e da estátua de O De(u)sconhecido – por assim dizer – erguida em frente ao Armazém Paraíba; do famoso drama "Romeu e Julieta", de Willian Shakespeare e do dramaturgo brasileiro Nelson Rodrigues e da peça "Bacabal nos Braços de Artistas", da nossa Dalva do Teatro; dos vasos gregos e indígenas e das peças artesanais de Malaquias, em frente à BIASA; enfim, essas produções culturais nos levam a lembrar de feitos artísticos que só enriquecem a história de um povo. E ao lembrarmos do povo, lembramos de nossa terra, de nossa gente, de nossos costumes e tradições, de feitos e fatos culturais de outrora vivenciados entre nós.
E nessas lembranças, lembramos de nós mesmos, os artistas e de sua arte. E ao lembrarmos da arte local, vemos que ela é rica e variada. E lembramos que ontem ela parecia tão viva, tão sólida, tão rica, tão bela, tão ela... Era, num pretérito que já se fazia imperfeito. Todavia, como um sonho, acordamos e pasmamos diante de uma triste e pior realidade: nossa arte está morta. Morta em produção, morta em diversão, morta em oportunidades, morta em realização, morta por não ter apoio; morta de querer e não poder; morta de poder e não quererem, morta em quase tudo, morta de vergonha...
Então ficamos a perguntar: Cadê nossa cultura? Cadê a prefeitura? Cadê a postura? Cadê nosso Conselho? Por que não o quiseram? Cadê o dinheiro? O gato comeu?
Oh, cidade sem sorte ou cidade sem lei? Princesa do Mearim ou Gata Borralheira? Bacabal ou Bacabaúúúúúh? Cidadezinha sem-vergonha! Na verdade, vítima. E ela apenas chora diante das perguntas que não querem calar: Para onde caminhas? Onde queres chegar? Aonde estão te empurrando? Por que não reages?
São tantos os teus problemas que já não os conta mais e já não resistes tua própria sede. Às portas do teu centenário, atravessas tua pior crise. Era para ser o contrário, pois não mereces isso. Não mereces mesmo. Nunca mereceste. Sempre foste gentil e hospedeira ao nativo e ao estrangeiro. E por que te matam em troca do poder e da ganância? Sempre botaste fé em quem tem te decepcionado. Em troca de teu leite estão te sugando, te sucateando e rindo de ti e do teu povo na tua cara.
E ainda vem essa de Dia Nacional das Artes!... Quanto a isso, não resta esperar nada, resta apenas um fio de lembranças dos feitos imperfeitos de ontem. E hoje, comemorar o quê? Afinal, arte é uma m... que não dá lucro, só despesa.
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Texto de 13.08.2019 por #EdgarMoreno - heterônimo de Costa Filho, membro da Academia Bacabalense de Letras
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Domingo, 02 Agosto 2020 17:47

O TEMPO É IMPROVÁVEL

Escrito por
O sábado é quente e seco. O vento, feito uma brisa, traz uma leve saudade de ontem. Mas não está mais aqui aquele menino que ficava a olhar urubus voando pelas altas nuvens em pleno sol escaldante. Os urubus são outros, as nuvens são outras, embora pareçam as mesmas; o menino é outro, os tempos são outros.
Só o sol continua escaldante. E aquele menino, agora com suas próprias cãs, pensa uma frase de improviso: "O tempo é improvável". E, de fato, o é. O tempo não se vale de nada para seu amanhã que não seja a própria mudança e indefinição das coisas, apenas elas vão acontecendo ou não, conforme a ideia, a ação humana e as circunstâncias da própria vida. Mas o tempo, este não para para amarrarmos o cadarço.
Os próprios escritos são o reflexo dessa improbabilidade temporal. Ora, pois, se até este rabisco me era improvável até há pouco, e já agora me está vindo de paraqueda, gratuito, sem maior motivo, que não o de existir. Apenas o vejo se construindo como lá em cima se juntam as nuvens em desenhos surreais.
Contudo, nada nos vem ou nos vai por acaso. E o sol quente nesta sombra do vizinho seja talvez o fato inspirador e casual, mas não único. Tenho ainda às vistas um urubu na ponta do poste e outros no ar a me reflorescer a memória que de ontem subsiste. Passou-me também um avião na traçada linha aérea por sobre a Vila Kühn. Mas na aeronave, nenhuma inspiração. Antes, a encontro na cadela ao meu lado, que é a realidade mais próxima a me vigiar na leitura de "A música".
Tudo o mais é este cenário que necessito para largar a leitura e me apegar à ideia da escrita para assim não perder o registro desse momento doce e sereno do existir. E não apenas isso, mas ainda ganhar meu dia com algum texto sem maiores critérios e intenções, apenas intrometido, mas que ainda assim realiza, pois assim é também o tempo: improvável, mas existencial e por algum motivo, útil.
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(#Costa Filho, #Crônicas, 2020, ago, 01)
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