Sexta, 07 Agosto 2020
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Edgar Moreno

Edgar Moreno (10)

Domingo, 02 Agosto 2020 17:47

O TEMPO É IMPROVÁVEL

Escrito por
O sábado é quente e seco. O vento, feito uma brisa, traz uma leve saudade de ontem. Mas não está mais aqui aquele menino que ficava a olhar urubus voando pelas altas nuvens em pleno sol escaldante. Os urubus são outros, as nuvens são outras, embora pareçam as mesmas; o menino é outro, os tempos são outros.
Só o sol continua escaldante. E aquele menino, agora com suas próprias cãs, pensa uma frase de improviso: "O tempo é improvável". E, de fato, o é. O tempo não se vale de nada para seu amanhã que não seja a própria mudança e indefinição das coisas, apenas elas vão acontecendo ou não, conforme a ideia, a ação humana e as circunstâncias da própria vida. Mas o tempo, este não para para amarrarmos o cadarço.
Os próprios escritos são o reflexo dessa improbabilidade temporal. Ora, pois, se até este rabisco me era improvável até há pouco, e já agora me está vindo de paraqueda, gratuito, sem maior motivo, que não o de existir. Apenas o vejo se construindo como lá em cima se juntam as nuvens em desenhos surreais.
Contudo, nada nos vem ou nos vai por acaso. E o sol quente nesta sombra do vizinho seja talvez o fato inspirador e casual, mas não único. Tenho ainda às vistas um urubu na ponta do poste e outros no ar a me reflorescer a memória que de ontem subsiste. Passou-me também um avião na traçada linha aérea por sobre a Vila Kühn. Mas na aeronave, nenhuma inspiração. Antes, a encontro na cadela ao meu lado, que é a realidade mais próxima a me vigiar na leitura de "A música".
Tudo o mais é este cenário que necessito para largar a leitura e me apegar à ideia da escrita para assim não perder o registro desse momento doce e sereno do existir. E não apenas isso, mas ainda ganhar meu dia com algum texto sem maiores critérios e intenções, apenas intrometido, mas que ainda assim realiza, pois assim é também o tempo: improvável, mas existencial e por algum motivo, útil.
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(#Costa Filho, #Crônicas, 2020, ago, 01)
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Segunda, 20 Julho 2020 15:11

A AMIZADE TEM DIA?

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Hoje, 20 de julho, é oficialmente, o DIA DO AMIGO, mas sabemos que a amizade é algo milenar, que atravessa gerações e supera as 24 horas do seu dia oficial. Quando então é o Dia da Amizade? Ontem, hoje e amanhã. E os motivos podem ser dos mais bestas e ocasionais até aos festivos e programados. Não há uma lei específica para na vida se encontrar um amigo ou encontrar-se com eles, dividir o bom papo, o choro, a alegria ou um simples cumprimento. Entretanto, a amizade é algo tão sublime que tem um dia oficial para ser lembrada, refletida, agradecida, comemorada...

Já diz a Bíblia: "Quem encontra um amigo, encontra um tesouro". E de fato, a A amizade é um bem e um dom que todos nós precisamos, independentemente da idade, etnia, gênero, religião, time, nível financeiro, escolar ou qualquer outra diferença. O amigo pode ser de sangue, das horas, de todas as horas ou simplesmente da vida, de um breve momento, embora, às vezes ele caia de paraquedas e fique eternamente no nosso coração.

A amizade é algo coletivo, mas particularmente especial. Cada amigo tem seus amigos, que podem passar a ser também meus amigos e teus amigos. E assim vai crescendo a corrente da amizade.

Cada um dos nossos amigos tem suas próprias qualidades, que podem ser justamente aquelas que lhe completam, mas que também, nem sempre são aquelas que você gostaria, porém, uma das funções da amizade é exatamente compreender essas diferenças. Isso é quem diz se é ou não amizade.

Doutro modo, um amigo não precisa estar 24 horas perto um do outro, e se ele sumir presencialmente, a amizade vai continuar como um elo mágico que traz algo ruim-bom chamado saudade.

Quem tem amigos convém preservá-los, pois uma vida sem amigos não deve ser muito animada, é um tanto vazia. Os amigos são a bagunça que precisamos; a zoada que perturba beneficamente o nosso silêncio; o silêncio que acalma a nossa dor e o nosso estresse; a pessoa que nos une num sentimento fraterno, o doce sentimento da amizade. Enfim, a amizade é uma bênção.

Abraços fraternais a todos os meus amigos.

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Quarta, 15 Julho 2020 00:49

RUA 14 DE JULHO - A ORIGEM DE UM NOME

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 Em conversa com Raimundo Sérgio de Oliveira, um ícone da nossa história, a quem estudantes e curiosos recorriam quando o tema era a história de Bacabal, o poeta trovador contou uma narrativa curiosa: a origem do nome da Rua 14 de Julho, a conhecida Rua das Três, que alude a três irmãs que ali moravam e ganhavam a vida na zona meretrícia.

O poeta, meu coirmão da Academia Bacabalense de Letras, todo humorado e bem vestido a pano passado, e sempre com seu guarda-chuva nas mãos, se deleitava nessas conversas sobre a cidade que o acolheu em 1952, vindo de Chapadinha, fazendo da querida Bacabal, sua morada fixa até ir-se de entre nós em 2014. Compare-se aqui o nome da rua com o ano de sua morte.  

Pois bem, não obstante eu estar no mesmo ritmo lento, prosador e detalhista do nosso escritor, vamos ao que interessa, mas já adianto que nem tudo sairá como disse o prosador, em função do tempo e da falha de lembrança, não dele, que tinha uma invejável memória, mas deste cronista que vos escreve.

Pois sim, a origem do nome “Rua 14 de Julho” data da década de 1960 e alcança demandas morais, sociais e administrativas. Estando a cidade em acelerado crescimento populacional, para cá chegavam famílias diversas para fazer vida e desenvolvimento. Por essa época a Rua 28 de Julho já era uma das mais movimentadas da cidade e um reduto dos prazeres da carne de homens solteiros ou infiéis e rapazolas na puberdade. Conforme o poeta, o nome “28 de Julho” derivou de uma rua de mesmo nome na capital São Luís, recheada que era de bordéis, contudo, é quase certo que aquela rua da capital homenageie a adesão do Maranhão, em 1823, à Independência do Brasil em relação à Coroa Portuguesa.

Fica acima explicado sobre o nome da nossa Rua 28 de Julho. Mas quanto à Rua 14 de Julho? O que tem a ver uma rua com a outra? Tudo a ver. Vamos lá. A Bacabal de outrora aumentava em comércios, indústrias, população, lazer e também em prazeres. Como toda cidade em crescimento, é natural que também venha a crescer sua zona do baixo meretrício. Afora a longe e recuada ZBM da Trizidela e a do Maxixe, era famosa a zona da Rua 28 de Julho e imediações. Como esta rua se localizasse bem no cerne do movimento, por onde transitavam cotidianamente pessoas diversas, clientes, senhoras religiosas, crianças e “famílias de bem”, alguns membros da sociedade e igreja se manifestaram contra a permanência da ZBM no centro da cidade, levando a gestão pública e o próprio poeta, que era vereador e influente nas questões de urbanismo, a deslocarem as casas de luz vermelha da 28 de Julho para outro local mais distante da “sociedade”. O local escolhido foi, à época, a última rua do Bairro da Areia, conhecida por Rua das Três, na verdade uma larga avenida, que não ficou menos movimentada pelas suas festas e regalos noturnos.

A decisão administrativa, contudo, não agradou toda a categoria e nem todas as luzes vermelhas se apagaram de todo, e foram ficando e resistindo quiçá clandestinamente. Desse modo, apenas parte dos bordéis da 28 se deslocaram para a Rua das Três, formando assim a 14 de Julho, Era uma questão moralista trazendo à tona social a lógica da matemática: 28 dividido por 2 = 14.

— Nomeemos a rua oficialmente de 14 de Julho, pois da 28 foram para lá parte de suas mulheres da vida.        

E esse é o motivo do nome dessa rua, nome tão tipicamente bacabalense. E até creio que nisso há muito do nosso historiador mais do que a narrativa, há de estar também a ideia e a ação, pois essa era sua cara: brincar com os números e com a história.

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(Costa Filho, Crônica do dia, 14-VII-2020)

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Sexta, 03 Julho 2020 15:57

Tudo certo, mas tudo errado

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Nem acordou direito se deu conta de que já tinha dobrado os lençóis, ajeitado as fronhas no devido lugar, enfim, a cama estava toda arrumadinha, como de costume. Pronto, agora estava tudo certo.

—Atchim! Atchim! Atchim!

—Não está tudo certo, está tudo errado.

— Como assim, tudo errado?

— O alergologista, o imunopatologista, o otorrinolaringologista, ou sei lá o que, enfim, o médico especialista em ácaros disse na tevê que...

— Disse o quê?  Que eu estou errado ao organizar a própria cama?

— Não, que esse procedimento não é o correto.

— Ah, agora eu vi! Quer dizer que o certo é ser desorganizado?

— Não, o certo é fazer do jeito certo.

— E como é o jeito certo?

— A cama deve ficar desarrumada...

— Fala sério...

— Estou falando sério. A cama não deve ser arrumada por pelo menos uma hora.

— Isso não pode ser verdade.

— Mas é verdade, esse é o tempo em que os ácaros já estão enfraquecidos ou mortos pelo ar e pela luz.

— É por isso que o mundo está virado, o certo virou errado e o errado virou certo.

— Não é bem assim...

— Ora! Vá entender... Quando se pensa que se vai bem, se vai muito mal.

— Mas isso faz mal.

— Ser organizado?

— Não, os ácaros.

— Ora! Eu sei que os ácaros são nocivos, mas eles não vão mudar meus hábitos, meus bons hábitos.

— Os especialistas também afirmam que ser perfeccionista também faz mal.

— Agora mais essa?

— Tudo em excesso faz mal. Enfim, a cama deve ficar desarrumada.

— Isso é uma piada! Só pode! Uma grande pia... Aaaaaatchin!

— Olha aí o resultado.

— Eu não vou ceder a esses caprichos medicinais. Preciso do meu advogado.

— Então é melhor travar luta diária contra cerca um milhão e meio de ácaros? E daí ficar sujeito a contrair asma? Eczemas ou dermatites? Febre do feno crônica? E outros tantos diferentes tipos de alergias respiratórias e inclusive insônia?

— Aaaargh! Ai, que tortura!... – e pondo as mãos na cabeça – Acho que vou precisar também de um psicólogo...

Saiu correndo porta a fora, enquanto no quarto ficava uma cama sendo desarrumada...

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(#EdgarMoreno #CostaFilho, #Minicronicontos, 2020) #ácaros #certo #errado

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Terça, 02 Junho 2020 23:31

CARTA A ADELAIDE (NO ISOLAMENTO)

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Terra das Bacabas, tarde de sábado, 09 de maio de 2020.

Minha doce e querida Adelaide,

Agora me ponho, literalmente, à beira duma cama, acomodado num banquinho simples a resolver algumas demandas da vida por meio das redes sociais, esse estilo tão usual por agora: “à la remoto”. Como sabes, e na França não estar a ser diferente, o mundo por esses tempos coexiste no isolamento e no distanciamento das pessoas. Coisa triste, minha Adé, pois quando Deus criou o homem, a única lei de distanciamento era a da árvore da vida, no meio do jardim. Mas convenhamos, de lá para cá, muitos Adões e inúmeras Evas nasceram e pecaram, fizeram sua história e morreram e, por conseguinte, modificaram a paisagem do Éden, que agora não é mais um paraíso, mas um cenário pandêmico duma guerra silenciosa e destrutiva. O mundo chora uma mesma dor coletiva e quase inexplicável, porém há de explicar isso algum dia.

Mas como dizia, cá estou no pé de minha cama, no isolamento do meu quarto a tocar a vida remotamente pelo celular. Quem diria que chagaríamos a esse ponto! E agora, ao me virar para o criado-mudo, vejo um prato servindo de bandeja, uma garrafinha d’água e dois copos de materiais e funções diferentes: para água e para chás. Neste cenário hostil e solitário, vejo ainda alguns livros, um termômetro e uns remédios, que te posso assegurar, não é cloroquina. Por aqui a resistência ao medicamento é ferrenha e discutível, de modo que ninguém se entende sobre o caso. Avalia tu mesma, Adé: o presidente é a favor, enquanto parte dos médicos também, e já outros segmentos maiorais não o são, nem liberam o uso da droga, a bendita droga da vida. E nessa “queda de braço”, pessoas inocentes vão perdendo a vida para essa nova doença, que me recuso a citar o nome.

Resta saber, Adé, quem no fim, estará certo ou errado, ou quem está agindo pensando em acertar ou mesmo protelar, por razões adversas e quaisquer. Só que até lá muitas vidas já se foram em meio a atos de dissensões e politicagens. Neste mundo ambicioso e cruel, nada pode ser descartado. No fim, o cenário é uma arena ideológica, onde cada um defende aquilo em que acredita, tudo isso num momento complexo de fragilização do povo, da saúde desse povo, e, consequentemente da sua vida, que coexiste diariamente na iminência da morte.

Na verdade, minha Adelaide, todo mundo sabe o motivo velado, mas não me cabe ficar tecendo tal ponto nesta nossa carta, que seria de amor, não de dor, esse problema tão fora do nosso mundo de sonhos, mas que termina atingindo o mundo de todo mundo, inclusive o nosso. Se já estávamos longe pela distância, agora ficar distantes nos chegou como um ato de amor. Ah, vida! Ah, mundo! Ah, minha doce Adé! Como o momento é efêmero! Como a flor é efêmera! Como a paisagem inteira é efêmera! Como a arte é efêmera! Como são efêmeras as circunstâncias, o homem, a vida, tudo cá entre nós, humanos.

Aqui faço uma pausa para comer alguma coisa. Minha consorte veio me trazer algo num potinho plástico. São pedaços de melão. Ela já saiu. Não pôde ficar por cautela. Já não posso beijá-la, nem abraçá-la, nem nada mais que ficar aqui nesta alcova com minha máscara, esse lenço que tomou de conta do mundo com sua variedade de cores e estilos, esse lenço que dum dia para outro se tornou o acessório sanitário mais comentado pela população mundial, a partir da China, como o sabes.  

O melão está doce e gostoso e, além de hidratar, espero que o fruto me sirva também de calmante para que hoje minha noite seja tranquila, já que ontem foi-me uma insônia só. Admiro-me que eu não tinha essas coisas e torço que seja apenas o resultado dalguma estafa ou mal-estar passageiro. Os bloquinhos de melão, a cada instante, diminuem na vasilha, de modo que só me restam dois. Tomo um deles, mas não o como logo. Aproveito para olhar pela janela do meu quarto e, ainda que seja dia, há pouco chuviscado, e agora aclarado, vejo que não é um dia daqueles que vão com a nossa cara, como as jovens tardes de domingo.

Não, por aqui a tarde vai morrendo triste, e com ela esse dia de nuvens negras e sem graça. O telefone toca. Não deve ser nada mais importante que tu, minha Adé. E não era mesmo, senão uma daquelas chamadas de telemarketing que nos tira a paciência. Mas não te aflijas disso, já bloqueei o número, apesar de que isso não seja jamais a solução, podendo virem a discar de outro número, mas é certo que já não mais atenderei.

Deixemos para lá tais golpes ou tentações comerciais. Cuidemos de nós, cá neste momento, que deveria ser somente nosso, mas não o é. Olho novamente à janela, enquanto degusto o penúltimo pedaço de “melon”, como dirias tu, com biquinho, em teu mavioso francês. Volto a olhar lá fora. Não é noite feita ainda na janela do tempo, mas o é no relógio humano. O momento traz a triste hora do anoitecer lembrando-me a cantiga “A hora do amor”, do nosso Agnaldo Timóteo, que, vê essa coincidência, é do ano em que nasci.

E é com canção assim, minha querida Adé, que me vem uma imensa saudade de tua presença, de teus abraços, de teus beijos e afagos, sem o receio de contágio ou algum medo que não seja o de me apaixonar cada vez mais e perdidamente por ti. Esse era, e ainda é meu gostoso e incurável medo.

Minha querida, confesso que institivamente a emoção me levou a passar a mão nos olhos, mas de imediato, tirei-as e me higienizei. Que coisa! Essa prática atualmente condenável pela vigilância sanitária, vem agora como a forma mais prática de esconder as lágrimas da saudade. E esta saudade me traz um breve calafrio. Minha pele está quente. Vou-me ver o que me diz o termômetro: trinta e sete graus e meio. Minha consorte me disse ser febre. E concordo com ela, Adé, mas penso que nessa temperatura há algo do teu calor e da tua distância. Contudo, minha querida, não serei um poeta teimoso, um ignorante de minhas dores e perigos à saúde. Já fui na mesinha de medicamentos. Mas não te preocupes exacerbadamente comigo, estou me sentido bem. O único sintoma evidente é essa febre oscilante, que se manifesta mais à noite. Já estive a sentir dores generalizadas leves e umas cinco tosses desde o dia 6 de maio à tarde para cá.

Sei que isso vem te deixar meio preocupada e curiosa se meu caso é pandêmico. Eu francamente não sei te responder, mas penso que não. Rogo ao nosso bom Deus que não seja. No mais, estou me informando junto ao sistema de saúde local, além de estar isolado por prudência. Ao que parece só se faz o teste seguramente a sete dias dos sintomas. Entretanto, sem descartar minha suspeição, penso que possa ser um quadro de estresse ou uma recaída de meus maus dias no ano passado. Em qualquer dos casos, sejamos otimistas e peçamos ao Criador que nos guarde de todos os males. Digo “nos guarde” pensando também em ti, na minha família, nos amigos e na comunidade mundial, em que todos estão necessitados da graça divina.

Sei, minha Adé, que estás a te guardar e a te proteger aí na Cidade Luz, mas, nunca é demais lembrar-te a tão conhecida frase “Fique em casa”, ou como no falar do teu elegante francês “Restez à la maison”.

O tempo passa e já me cobra outros quefazeres. Não que tu me enfades, mas porque, tu o compreendes: a vida não pode parar. Concluamos, pois, esta missiva com duas coisas boas: sintamo-nos juntinhos, por agora, mesmo distantes, e tomemos como brinde à vida, esse mingau de maisena trazido-me há pouquinho. Já se vê: com fastio é o que não estou.

Despeço-me aqui com meu abraço em teus braços, meu beijo em teus beijos.

Do teu

Edgar

 

P.S.: Salve! Salve! Minha Adé! Minha temperatura de agora baixou a 36,8°. Fico por aqui mais otimista e saudável.

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Diante dum quadro pandêmico e antagônico em ideologias e atitudes, por mais que não queiramos, é praticamente impossível não meter o nariz na proa desse barco, onde estamos todos nós, à deriva do medo e da morte iminente.

Esses dias, por necessidade real, tive que sair ao centro de nossa Bacabal e pude constatar "in loco", e, sobretudo pelas redes sociais, que o bacabalense, tido como gente hospitaleira, alegre e trabalhadora, ganha mais um título, o da teimosia.

É impressionante o quantitativo de pessoas que se aglomeram, principalmente nas portas de bancos e lotéricas para sacar o auxílio emergencial de R$ 600,00. Apesar de a maioria estar de máscaras (sem meter aqui o fator higienização desses lenços), essas pessoas continuam mascaradas de consciência, e, pior, cegas para o perigo desta crônica situação que é da conta de todos. Num momento em que o distanciamento social é fator imprescindível e básico para evitar a disseminação do Coronavírus, a distância zero entre os beneficiários dentro e fora das agências bancárias se torna o grande vilão para a contágio de centenas de bacabalenses num mesmo lugar e duma só vez. Como efeito dominó, vem o colapso social, principalmente nos hospitais, cujas condições de atendimento já se sabe.

Mas não são apenas essas necessitadas pessoas que precisam tirar dos olhos a venda da teimosia e da inconsciência. Os estabelecimentos e os poderes constituídos, devem, por obrigação de ofício, considerarem de perto essa situação grotesca. Trata-se de um problema social, em que cada um precisa agir de forma positiva. Na verdade, esses órgãos são cônscios de que precisavam ter se preparado, pois com a liberação do auxílio, a aglomeração não seria uma mera possibilidade, mas um esperado fato. As Medidas e Orientações do governo federal são gerais, cabendo a cada jurisdição, seja estadual, municipal, institucional ou familiar, intervir nas necessidades locais.

Mas em toda essa parafernália, quem é o culpado? O que poderia ser feito para minimizar o problema? Não me convém aqui apontar culpados, a verdade é que o problema existe e precisa ser resolvido. É oportuno lembrar que cada pessoa física ou jurídica, no patamar de pessoa, beneficiário, órgão ou governo, tem cada um, seus deveres e também sua consciência.

E por que as pessoas saem de casa para os bancos e lotéricas, para o mercado ou calçadão, por exemplo? Vamos entender um pouco dessa particularidade pessoal, quando nos colocamos no lugar de cada um desses “teimosos”, deixando nossa empatia também dar sua opinião. Evidentemente que muitos dos “teimosos” saem por sair, mas nem todos são da mesma opinião e natureza. Cada qual com seus motivos, embora nem sempre justificáveis. Sem querer aqui ser avesso ao isolamento social, por trás de toda essa muvuca ou teimosia, como queiram, há algo chamado “necessidade”, que se traduz em parte por um sintoma estomacal conhecido por “fome”. Esse sintoma, que afeta humanos, animais e até plantas, precisa necessariamente ser curado ao menos a cada 24 horas, repetindo-se o ciclo, por ser um vírus permanente e natural. Para quem esse sintoma não representa problema, pelo fato de ter emprego fixo (mas não garantido), salário na conta ou alguma reserva financeira, é cômodo e até compreensível eloquir a imperativa frase “Fique em casa.” Contudo há o outro lado da moeda, e isso não pode ser ignorado. Com efeito, o auxílio emergencial é uma quantia presumível que, sendo aplicada em itens básicos de alimentação dá para ir sustentando uma família pequena por alguns bons dias, o que teoricamente levaria essa família a ficar em casa. Mas não é bem isso o que de fato acontece. E o dilema surge a partir da necessidade de saque desse benefício. É aí que bancos e lotéricas ficam lotados. Assim sendo, essas instituições precisam se programar e executar uma forma mais prática e saudável de atendimento ao seu público. Em tempos de pandemia, a lei maior é a do bom senso: cada um cuidando do seu público.      

Não precisaríamos ver cenas assim e corrermos sérios risco, se tais instituições demarcassem formalmente o distanciamento requerido de dois metros através da sombra nas calçadas, e os beneficiários assim o cumprissem, levando sua sombrinha ou guarda-chuva para evitar a agonia meteorológica da chuva e do sol queimante. É sabido que a Vigilância Sanitária e essas instituições fariam uma reunião para traçarem estratégias de solução ao problema. Como não tenho saído, não sei o resultado prático, se o problema foi solucionado ou se persiste. 

O município, por sua vez, poderia manter equipes treinadas, distribuindo máscaras e álcool-gel e muita orientação por outdoor, volante, etc., protegendo de perto seus munícipes. Mais a grande imprensa já divulga isso toda hora, diriam alguns. E eu cá, respondo: uma coisa é o público ouvir todo dia na tevê sobre os riscos do vírus, outra coisa são as pessoas se depararem em seu trajeto com ações reais de prevenção ao contágio da doença. E de onde viriam essas máscaras? Através da licitação e cooperativismo transparente entre as malharias da cidade, inclusive alcançando à demanda de costureiras domésticas existentes na cidade, ajudando-as a ficarem em casa e a garantirem alguma renda. Os presidiários também poderiam servir de mão-de-obra. Mas de onde viria a verba? Dos repasses federais destinados ao município. A título de lembrança, estados e municípios estão recebendo verbas exclusivas para ações de combate ao Coronavírus. Com Bacabal não é diferente, os repasses já contabilizam quase 2 milhões de reais. Então, falta de dinheiro não é.

Nesse sentido, o poder público municipal começou na terça-feira a higienização de logradouros públicos. Ações como essa, efetivamente, são de suma relevância numa cidade teimosa e com mais de 100 mil habitantes. Entretanto, implementações de outras ações é indispensável para a contenção da covid-19 nessa guerra silenciosa que traz clamor a todo o mundo. Nesse momento de crise, os poderes constituídos não podem se furtar de seus ofícios e atribuições representativas. Por isso, é hora de os vereadores saírem de sua redoma de isolamento popular, e legislarem, mesmo em sessão-conferência, com boas ideias nesse período difícil, cumprindo seu papel de fiscais do povo e cooperando contra a pandemia, que entre nós já são oito casos confirmados.    

  É hora de todos os poderes operarem, além das leis, em benefício da população e em combate à ameaça do vírus entre nós. É hora, enfim, de todos, indistintamente, redobrarem cuidados e colaborarem para a minimização desse problema mundial, mas de responsabilidade de todos e de cada um. 

A pandemia vai passar, e o que é mais precioso precisa continuar conosco: a vida.

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 (Crônicas de momento, Edgar Moreno, 22.04.2020)

#Pandemia #Coronavírus #Crônicas de #EdegarMoreno e #CostaFilho

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Neste domingo que é dedicado às mães, me pego olhando esta foto e particularmente cada traço dessa mulher-mãe, que vamos chamá-la Lídia, uma moça linda, simples, natural, bela, parecendo uma atriz. Na pose dá a impressão que ela está tirando uma selfie, mas não é. A foto é antiga e não sei precisar o ano, mas é quase certo que a década possa ser a de 1980, quando o mundo parecia outro. E de fato era.

Lídia adorava tirar retratos, escrever músicas em seus cadernos e até nas páginas em branco dos livros que lia. Adorava cantar "cantigas" de Júlio César, Roberto Carlos, José Augusto, Diana, entre outros cantores das antigas. Essa mulher-mãe não é apenas uma imagem, ela existiu um dia entre nós, ainda existe em muitas lembranças e existirá para sempre em muitos dos nossos corações.

Sendo ela de dezembro de 1958, hoje estaria com seus completos 61 anos, e é certo que estaria tão linda e tão jovem quanto na foto, pois tinha seu grau de vaidade e zelo pessoal, era sonhadora e amava a vida e as amizades.

Essa jovem mulher, é o retrato daquelas filhas que se tornam mães solteiras por via dum relacionamento casual, em que, após a gravidez tomará de conta do próprio filho, sozinha ou quem sabe com a ajuda da família. Ela tinha 25 anos quando isso aconteceu. Não era mais uma adolescente e como ocorreu na gravidez, tudo iria dar certo, mas não foi bem isso que aconteceu. No dia "D" de Lídia se tornar, pela primeira e única vez uma mãe no leito de um hospital público, na hora do parto, ocorreu um triste fato chamado de morte materno-fetal que ceifou uma filhinha que não viu a luz do mundo e uma mãe que não pôde ver uma única vez sua filha. Lídia não se foi desta vida, levaram-na, em tão precoce mocidade no dia 26 de outubro de 1984. Doído para a família e amigos foi suportar que não foi por complicação oriunda da mãe ou da bebê de seu ventre, mas por falta de estrutura básica às parturientes como analgésicos, anestesista e até a própria ampola de injeção e outros itens como esparadrapos, comprados que foram em farmácia pela família da jovem. Mas injusto ainda foi ver a "causa mortis" na certidão de óbito: morte natural. Era a primeira vez que um adulto e tão jovem morria naquela família. Essa crônica dor despensa até comentários.

Se, todavia, após 35 anos da morte de Lídia e sua filhinha, os detalhes do luto e da dor já não fazem diferença, é pertinente dizer que o caso fará sempre parte de uma triste estatística que precisa ser refletida sempre.

Quantas outras mães como Lídia não estão a existir por aí a fora! Quantas Lídias já deixaram o sabor amargo da morte em suas famílias, nas últimas décadas, na vida, nesses tempos por agora, aqui, ali e acolá!...

Isso requer reflexão. A cada ano milhares e milhares de mulheres engravidam no Brasil e no mundo, e não importa quem seja, ela precisa ser mãe de modo seguro e humanizado.

Para não ficar apenas no lirismo de uma história triste, trago alguns dados estáticos. Segundo o Ministério da Saúde, de cada dez mortes maternas no Brasil, nove poderiam ser evitadas, com adoção de medidas efetivas pelos sistemas de saúde públicos e privados. Embora de 1990 a 2015 a taxa de óbitos maternos ter reduzido, vem aumentando a partir de 2013, passando de 62,1 para 64,5 óbitos para cada 100 mil nascidos vivos, em 2017, índice alto segundo a OMS, que considera normal uma taxa de 30 para cada 100 mil nascidos vivos. Para termos uma melhor ideia, em números absolutos, o Brasil registrou 1.463 mortes maternas em 2016, fato que necessita de constante reflexão e ações conjuntas dos poderes e instituições afins. Nesse sentido, foi incluído no calendário médico e ministerial da saúde o dia 28 de maio como Dia Nacional da Redução da Morte Materna, que coincide com o Dia Internacional pela Saúde da Mulher, visando ações e reflexões sobre o tema.   

Lídia já não pode mais usufruir disso, nem sua filhinha também pôde sobreviver para depois ser mãe, contudo, há outras tantas mulheres que afeitas ao papel de ser mãe, engravidam para, como mãe se realizarem ao ver o doce e sereno sorriso de seu filho. Lídia se foi, mas seu retrato aliado a este texto não é menos que um protesto aos absurdos casos de mortes maternas divulgados ou escondidos todos os dias em nossa realidade, na realidade do mundo.

Com essa postagem do caso Lídia também queremos homenagear a todos as mães que assim como ela não tiveram o direito de ser mãe garantido. Por fim, fica do seu rosto sereno e mudo, a esperança de dias bons e felizes a todas as grávidas e a todas as mães.

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Sábado, 02 Mai 2020 15:25

OS PLANTONISTAS

Escrito por

No dia do trabalhador, que tal enxergarmo-los melhor? Eles são muitos e atuam em diversas áreas. Enquanto tu dormes tranquilamente, repousas ao meio-dia ou voltas para casa e vais assistir ao teu programa preferido, eles estão lá, muitas vezes sob efeito de cafeína ou outras substâncias para se manterem acordados para que a máquina continue funcionando. Eles estão no transportar de alimentos para tua mesa, confecção de produtos para teu conforto e entretenimento, artigos para suprir a demanda do próximo feriado: os itens do ano novo, o ovo da páscoa, o presente das mães, dos pais e das crianças, a lembrança especial do dia dos namorados, o natal e até finados. Eles mão param, não dormem no ponto. Usam branco, azul, vermelho, amarelo ou qualquer cor que se ligue à manutenção da engrenagem da vida. Estão lá nos corredores dos hospitais e clínicas salvando vidas. Estão nas alturas a ligar fios desprendidos pela chuva e pelos vândalos. Estão nas áreas de produção ou nos porões de serviços para que não te falte a luz, a água, o telefone, a internet, as netflixes da vida. Eles estão lá nas guaritas e ruas ermas a guardar a tua casa e teus bens, a perseguir os suspeitos da noite. Estão nas delegacias, postos de combustíveis, bares, farmácias e funerárias. Estão nas estradas, nos criatórios, granjas e campos de produção diversa. Estão nas redações dos jornais compondo a notícia da manhã seguinte, selecionando imagens e pesquisando as novidades da hora.

Eles não estão tão longe assim. Podem estar no apartamento ao lado, no escritório de casa, em frente ao computador, correndo contra o tempo e contra o sono. Quantos deles não resistem à pressão do cansaço e do não reconhecimento e terminam desistindo ou tombando, sem nenhuma medalha pelo seu heroísmo. Mas é preciso seguir. E a categoria vai seguindo em sua necessária missão. Muitos expiram por salvarem vidas e muitos vivem pelo prazer de servir com aquilo que bem sabem fazer.

Esses profissionais plantonistas, que sustentam o grande e imperceptível movimento da noite não são menos que dignos heróis de respeito e merecedores de reconhecimento, sobretudo nesse dia em que o trabalhador é o brilhante tema do dia.

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(Crônicas, Costa Filho, ortônimo de Edgar Moreno)

#Cronicando... #Minicronicontos #CostaFilho #DiadoTrabalhador #Plantonistas

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Segunda, 27 Abril 2020 19:21

O DIA "D" DUM ARMAZÉM DE SUCESSO

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Bacabal do Maranhão. Sábado, 19 de julho de 1958. A singela pracinha de Santa Teresinha, hoje chamada Praça Silva Neto, bem no centro do antigo e bem falado Bacabal de outrora, acolhe uma aglomeração de pessoas, que disputam espaço entre os tabuleiros de tecidos, confecções e eletrodomésticos. A casa é alta e a fachada, de cor creme, ainda fresca, impregna os traços de uma usina de arroz. As paredes elevadas e fornidas de adobe, o reboco forte e a tinta nova, dão ao prédio um aspecto renovado e imponente perante outras casas comerciais da cidade. As portas, largas, se agigantam para cima, assim como as paredes, com suas beiradas e detalhes brancos em alto relevo a subir rumo ao céu, e lá em cima, ao centro, o desenho de uma estrela, numa profecia simbólica de que ali nascia uma estrela mercantil nos céus da nossa querida Bacabal. Daí ganharia depois outras dimensões.

Tinha uns sessenta dias atrás que aquelas portas eram apenas um dos três galpões da Usina Dois Irmãos, alugado que fora para fins logísticos de ofertar ao Vale do Mearim o que os homens da cidade e as donas de casa precisavam, como fazendas e máquinas de costura, “roupas feitas”, cadeiras de macarrão, bicicletas, colchões, entre outros produtos bem característicos dum tempo em que nossa Bacabal alçava voo nos “Anos dourados” dos fins dos anos 50.

 Agora estava sendo inaugurada na cidade uma nova opção de empório, o Armazém Paraíba, cuja inscrição na parede era uma clara referência às origens de saída e determinação dos seus proprietários para cá, ao Mearim. Chegaram. Estabeleceram-se. E o momento era muito diferenciado dos demais comércios e dos tempos da época. O ambiente era alegre, festivo, memorável, bom de comprar e animado para se ver.  Desde cedo do dia, o moleque Nilo Lago já acordara com os estouros dos foguetes. O dia ia ser bom, pois ia ter até corrida de bicicletas do Paraíba até o Ramal, com premiação e tudo mais. Cá fora as paredes da loja se enfeitavam com “cortes” de chita, e lá dentro, no lugar do forro, panos coloridos decoravam o teto largo e fundo do barracão. A ordem para abrir foi dada pelo Seu Joca. Foi o vendedor e propagandista João da Costa Ramos quem abriu. E o fez com muita emoção. O povo entrou. Estava inaugurado o primeiro Armazém Paraíba da história.

Embrenhados na festa, o povo sorria, comprava, bebia e jogava conversa fora e já não queriam ir-se. Os clientes, autoridades e curiosos se sentiam altamente felizes e privilegiados em estar participando da inauguração daquele que, pelo jeito seria o armazém mais popular da cidade. No terreiro, uma camionete de carroceria de madeira e um megafone sobre a cabine anunciava o rasga-rasga de preços baixos, vendas no fiado e produtos da melhor qualidade. Enquanto isso, a pracinha, no inverno alagada, era uma festa só. Gente indo, gente vindo, os homens com suas calças simples e sociais, as mulheres com suas saias longas e fartas, e as crianças vestidinhas de babado ou calçõezinhos curtos. Os homens da roça, alguns com sua senhora a passar a pé ou de bicicleta, e, enxergando pela aba do chapéu, amarram seus animais e entram no empório para ver o que ali se sucede. Moços novos e até moleques encostam sua Monark ou sua Caloi enlameada das paragens e da própria praça sem calçamento, e todos se somam na multidão. O povo é uma curiosidade só, mas já parece afeito à proposta do armazém e seus donos, que ainda desconhecidos da população, se misturam ao povo cheios de carisma e simplicidade. A notícia correra, mas nem a todos alcançou. O fato começa a ser o motivo das conversas nos pés de balcões, à beira do rio, no carregamento de cargas, nas conversas urbanas e rurais e nos caminhos a fora. Bem perto da Rianil, uns “cumpades” cogitam de quem seria o empreendimento; e, ali vizinho, na porta da Souza Cruz e também em frente ao Dr. De Paula, o assunto era o mesmo. Mas quem seria esse comerciante novo que chegou com aquilo tudo? Havia de ter muito dinheiro e coragem. Havia de ter também uma estrela para o negócio. Isso era o que podiam se perguntar os comerciantes das lojas tradicionais. A conversa tanto girou que chegou a um funcionário, o qual assegurou sobre os donos, mostrando entre o povo, os irmãos Valdecy e João Claudino, protagonistas mentores daquele marcante evento. Um deles, o Seu Joca, já se punha perto do megafone para, ele mesmo dar sua colaboração na propaganda inaugural da loja. Ele era assim? Sempre presente, simples e contribuidor? Sim, isso mesmo, teria sido a resposta.

O povo veio, gostou, comprou e foi-se feliz para a sua família contar as boas-novas. Quanto à cidade, essa abraçou com afeto os novos comerciantes vindos de Cajazeiras fazer vida aqui no Mearim. Vieram. Acharam graça em nossa terra e nossa terra neles. Aqui fincaram a pedra fundamental de um grande empreendimento que se consolidaria futuramente passo a passo num grande negócio, com muito trabalho e determinação. O sonho estava se realizando. E muito bem.

Terminada a festa, uma câmera fotográfica eternizou o feito numa foto simples, mas significativa, uma prova rara do momento que seria a inspiração de muitas histórias e combustível para muitas outras lutas e vitórias dos irmãos Claudino, a partir de um singelo armazém fundado em Bacabal, mas denominado Paraíba.

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Sexta, 17 Abril 2020 20:20

CRÔNICA A LA CUXÁ

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Prólogo a uma crônica de estreia

Alguns textos carecem de um prólogo. Ei-lo, pois:

Em meados de 2019, precisamente a 30 de junho, comecei a escrever como se já então fosse estrear uma coluna no site Cuxá. O feito não ocorreu à época, mas hoje está a se concretizar. Cousas da vida que querem se realizar e terminam se realizando mesmo. Deixemos o prólogo e passemos à estreia.

São exatamente dez e oito da manhã. O domingo é de sol ameno na Vila Kühn. Uma leve brisa perpassa pelo ar, balançando os capinzinhos da rua e deixando no tempo um cheirinho de bem-estar. No céu azul e límpido, uma dezena de aves negras sobrevoam as alturas a brincar nas nuvens brancas. Cá, em baixo, uns meninos aqui de perto empinam suas pipas simples, enquanto aqui, na minha calçada, me visto genuinamente de Edgar Moreno para um ofício peculiar e nobre: escrever uma crônica de estreia da webcoluna Cronicando... para o Cuxá, esse badalado site de minha cidade.  

O tempo me parece bem propício para isso. Acaba-se junho e com ele suas festas e comidas típicas.  Já dá até saudade do cheirinho gostoso do arroz de cuxá. Hum... Houve fogueiras? Não as vi, mas houve procissão de São Pedro no rio Mearim. Daqui a pouquinho, julho chega com seu ar de férias e nuances de um novo ciclo e, com ele, um Cuxá, agora temperado à la crônica.  Quero, deixar-me estar assim, contente e inspirado para mais uma etapa de publicação da literatura edgarina, que para o leitor menos atento pode vir a se confundir com seu ortônimo e parceiro Costa Filho, tais são os termos deste tópico frasal que aqui se encerra.

Pego da minha pena azul, porque para a crônica o dia não se pintará do preto do luto, nem do vermelho da guerra, mas se adornará do azul harmônico da serenidade e da harmonia. Já o papel e a escrita, prefiro a forma tradicional: a punho. E assim a crônica vai se desenhando neste caderno de rascunhos com folhas pautadas e capa verde. Eu poderia dizê-lo em folhas soltas, mas não é, e o cronista tem esse apego pelas minúcias e verdades. É que isso, diferentemente do computador, me parece mais justo e inspirativo para registrar esse momento doce e com efeito, histórico.

O tempo passa nesta sombra de muro. Os capinzinhos continuam em sua dancinha leve, as aves negras rodeiam os ares, os meninos correm pelo chão descalços. Uma crônica precisa sair-me, e sair muito bem original e marcante, como A última crônica, de Fernando Sabino.

E bem aqui detenho-me para a primeira correção textual, ou como diriam nossos estudantes, para “passar a limpo”, afinal essas rasuras e emendas já me parecem estúpidas e reclamantes duma melhor estética.

Tudo corrigido, agora; ou pelo menos acho. Prossigamos, pois, meu leitor.

A crônica tem mesmo dessas coisas: a gente escreve e reescreve, faz e desfaz, emenda e corrige para depois, no prelo, encontrar um deslize, uma melhor frase ou alguma cena não vinda na hora da criação. Talvez, leitor, não te recordes desse teu cronista, ou não conheças de perto essa moça linda e nobre chamada crônica. Pois cá estamos, eu, tu e ela para semanalmente ou quando assim nos for possível, encontrar-nos aqui pelo Cuxá. Eu, a trazer-te essa jovem serena e doce, inteligente e crítica; tu, a degustá-la; e, no meio de nós ambos, como centro das atenções, ela, elegantemente vestida de nuances históricas da cidade, do cotidiano bacabalense, dos modos de nosso povo ou mesmo imersa nalguma reflexão sobre a vida ou ainda se importando das pequenas grandes coisas que somente a crônica pode fazê-lo de modo tão singelo e singular.  E assim o será, eu, tu e a crônica, cada um com sua honrosa função: a minha, de construí-la ao teu bel prazer; a dela, de entreter-te de modo útil e agradável; e tu, leitor, aí do outro lado, com uma missão das mais admiráveis, quiçá a mais sublime, que é ler e curtir esse lírico cenário na sombra da tua porta, no teu escritório, no banco da praça, nos horários vagos, degustando, apreciando e compartilhando essas crônicas a la Cuxá, cuja leitura da edição inaugural estás a concluir agora. 

Resta-me, formular-te novo convite para as próximas crônicas e desejar-te uma boa leitura!

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Edgar Moreno é cronista e escritor bacabalense, heterônimo de Costa Filho, membro da Academia Bacabalense de Letras, Cadeira nº 2.

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