Segunda, 03 Agosto 2020
Portuguese English Spanish
booked.net

Diante dum quadro pandêmico e antagônico em ideologias e atitudes, por mais que não queiramos, é praticamente impossível não meter o nariz na proa desse barco, onde estamos todos nós, à deriva do medo e da morte iminente.

Esses dias, por necessidade real, tive que sair ao centro de nossa Bacabal e pude constatar "in loco", e, sobretudo pelas redes sociais, que o bacabalense, tido como gente hospitaleira, alegre e trabalhadora, ganha mais um título, o da teimosia.

É impressionante o quantitativo de pessoas que se aglomeram, principalmente nas portas de bancos e lotéricas para sacar o auxílio emergencial de R$ 600,00. Apesar de a maioria estar de máscaras (sem meter aqui o fator higienização desses lenços), essas pessoas continuam mascaradas de consciência, e, pior, cegas para o perigo desta crônica situação que é da conta de todos. Num momento em que o distanciamento social é fator imprescindível e básico para evitar a disseminação do Coronavírus, a distância zero entre os beneficiários dentro e fora das agências bancárias se torna o grande vilão para a contágio de centenas de bacabalenses num mesmo lugar e duma só vez. Como efeito dominó, vem o colapso social, principalmente nos hospitais, cujas condições de atendimento já se sabe.

Mas não são apenas essas necessitadas pessoas que precisam tirar dos olhos a venda da teimosia e da inconsciência. Os estabelecimentos e os poderes constituídos, devem, por obrigação de ofício, considerarem de perto essa situação grotesca. Trata-se de um problema social, em que cada um precisa agir de forma positiva. Na verdade, esses órgãos são cônscios de que precisavam ter se preparado, pois com a liberação do auxílio, a aglomeração não seria uma mera possibilidade, mas um esperado fato. As Medidas e Orientações do governo federal são gerais, cabendo a cada jurisdição, seja estadual, municipal, institucional ou familiar, intervir nas necessidades locais.

Mas em toda essa parafernália, quem é o culpado? O que poderia ser feito para minimizar o problema? Não me convém aqui apontar culpados, a verdade é que o problema existe e precisa ser resolvido. É oportuno lembrar que cada pessoa física ou jurídica, no patamar de pessoa, beneficiário, órgão ou governo, tem cada um, seus deveres e também sua consciência.

E por que as pessoas saem de casa para os bancos e lotéricas, para o mercado ou calçadão, por exemplo? Vamos entender um pouco dessa particularidade pessoal, quando nos colocamos no lugar de cada um desses “teimosos”, deixando nossa empatia também dar sua opinião. Evidentemente que muitos dos “teimosos” saem por sair, mas nem todos são da mesma opinião e natureza. Cada qual com seus motivos, embora nem sempre justificáveis. Sem querer aqui ser avesso ao isolamento social, por trás de toda essa muvuca ou teimosia, como queiram, há algo chamado “necessidade”, que se traduz em parte por um sintoma estomacal conhecido por “fome”. Esse sintoma, que afeta humanos, animais e até plantas, precisa necessariamente ser curado ao menos a cada 24 horas, repetindo-se o ciclo, por ser um vírus permanente e natural. Para quem esse sintoma não representa problema, pelo fato de ter emprego fixo (mas não garantido), salário na conta ou alguma reserva financeira, é cômodo e até compreensível eloquir a imperativa frase “Fique em casa.” Contudo há o outro lado da moeda, e isso não pode ser ignorado. Com efeito, o auxílio emergencial é uma quantia presumível que, sendo aplicada em itens básicos de alimentação dá para ir sustentando uma família pequena por alguns bons dias, o que teoricamente levaria essa família a ficar em casa. Mas não é bem isso o que de fato acontece. E o dilema surge a partir da necessidade de saque desse benefício. É aí que bancos e lotéricas ficam lotados. Assim sendo, essas instituições precisam se programar e executar uma forma mais prática e saudável de atendimento ao seu público. Em tempos de pandemia, a lei maior é a do bom senso: cada um cuidando do seu público.      

Não precisaríamos ver cenas assim e corrermos sérios risco, se tais instituições demarcassem formalmente o distanciamento requerido de dois metros através da sombra nas calçadas, e os beneficiários assim o cumprissem, levando sua sombrinha ou guarda-chuva para evitar a agonia meteorológica da chuva e do sol queimante. É sabido que a Vigilância Sanitária e essas instituições fariam uma reunião para traçarem estratégias de solução ao problema. Como não tenho saído, não sei o resultado prático, se o problema foi solucionado ou se persiste. 

O município, por sua vez, poderia manter equipes treinadas, distribuindo máscaras e álcool-gel e muita orientação por outdoor, volante, etc., protegendo de perto seus munícipes. Mais a grande imprensa já divulga isso toda hora, diriam alguns. E eu cá, respondo: uma coisa é o público ouvir todo dia na tevê sobre os riscos do vírus, outra coisa são as pessoas se depararem em seu trajeto com ações reais de prevenção ao contágio da doença. E de onde viriam essas máscaras? Através da licitação e cooperativismo transparente entre as malharias da cidade, inclusive alcançando à demanda de costureiras domésticas existentes na cidade, ajudando-as a ficarem em casa e a garantirem alguma renda. Os presidiários também poderiam servir de mão-de-obra. Mas de onde viria a verba? Dos repasses federais destinados ao município. A título de lembrança, estados e municípios estão recebendo verbas exclusivas para ações de combate ao Coronavírus. Com Bacabal não é diferente, os repasses já contabilizam quase 2 milhões de reais. Então, falta de dinheiro não é.

Nesse sentido, o poder público municipal começou na terça-feira a higienização de logradouros públicos. Ações como essa, efetivamente, são de suma relevância numa cidade teimosa e com mais de 100 mil habitantes. Entretanto, implementações de outras ações é indispensável para a contenção da covid-19 nessa guerra silenciosa que traz clamor a todo o mundo. Nesse momento de crise, os poderes constituídos não podem se furtar de seus ofícios e atribuições representativas. Por isso, é hora de os vereadores saírem de sua redoma de isolamento popular, e legislarem, mesmo em sessão-conferência, com boas ideias nesse período difícil, cumprindo seu papel de fiscais do povo e cooperando contra a pandemia, que entre nós já são oito casos confirmados.    

  É hora de todos os poderes operarem, além das leis, em benefício da população e em combate à ameaça do vírus entre nós. É hora, enfim, de todos, indistintamente, redobrarem cuidados e colaborarem para a minimização desse problema mundial, mas de responsabilidade de todos e de cada um. 

A pandemia vai passar, e o que é mais precioso precisa continuar conosco: a vida.

_______________________

 (Crônicas de momento, Edgar Moreno, 22.04.2020)

#Pandemia #Coronavírus #Crônicas de #EdegarMoreno e #CostaFilho

Compartilhar nas redes sociais:
Publicado em Edgar Moreno

Neste domingo que é dedicado às mães, me pego olhando esta foto e particularmente cada traço dessa mulher-mãe, que vamos chamá-la Lídia, uma moça linda, simples, natural, bela, parecendo uma atriz. Na pose dá a impressão que ela está tirando uma selfie, mas não é. A foto é antiga e não sei precisar o ano, mas é quase certo que a década possa ser a de 1980, quando o mundo parecia outro. E de fato era.

Lídia adorava tirar retratos, escrever músicas em seus cadernos e até nas páginas em branco dos livros que lia. Adorava cantar "cantigas" de Júlio César, Roberto Carlos, José Augusto, Diana, entre outros cantores das antigas. Essa mulher-mãe não é apenas uma imagem, ela existiu um dia entre nós, ainda existe em muitas lembranças e existirá para sempre em muitos dos nossos corações.

Sendo ela de dezembro de 1958, hoje estaria com seus completos 61 anos, e é certo que estaria tão linda e tão jovem quanto na foto, pois tinha seu grau de vaidade e zelo pessoal, era sonhadora e amava a vida e as amizades.

Essa jovem mulher, é o retrato daquelas filhas que se tornam mães solteiras por via dum relacionamento casual, em que, após a gravidez tomará de conta do próprio filho, sozinha ou quem sabe com a ajuda da família. Ela tinha 25 anos quando isso aconteceu. Não era mais uma adolescente e como ocorreu na gravidez, tudo iria dar certo, mas não foi bem isso que aconteceu. No dia "D" de Lídia se tornar, pela primeira e única vez uma mãe no leito de um hospital público, na hora do parto, ocorreu um triste fato chamado de morte materno-fetal que ceifou uma filhinha que não viu a luz do mundo e uma mãe que não pôde ver uma única vez sua filha. Lídia não se foi desta vida, levaram-na, em tão precoce mocidade no dia 26 de outubro de 1984. Doído para a família e amigos foi suportar que não foi por complicação oriunda da mãe ou da bebê de seu ventre, mas por falta de estrutura básica às parturientes como analgésicos, anestesista e até a própria ampola de injeção e outros itens como esparadrapos, comprados que foram em farmácia pela família da jovem. Mas injusto ainda foi ver a "causa mortis" na certidão de óbito: morte natural. Era a primeira vez que um adulto e tão jovem morria naquela família. Essa crônica dor despensa até comentários.

Se, todavia, após 35 anos da morte de Lídia e sua filhinha, os detalhes do luto e da dor já não fazem diferença, é pertinente dizer que o caso fará sempre parte de uma triste estatística que precisa ser refletida sempre.

Quantas outras mães como Lídia não estão a existir por aí a fora! Quantas Lídias já deixaram o sabor amargo da morte em suas famílias, nas últimas décadas, na vida, nesses tempos por agora, aqui, ali e acolá!...

Isso requer reflexão. A cada ano milhares e milhares de mulheres engravidam no Brasil e no mundo, e não importa quem seja, ela precisa ser mãe de modo seguro e humanizado.

Para não ficar apenas no lirismo de uma história triste, trago alguns dados estáticos. Segundo o Ministério da Saúde, de cada dez mortes maternas no Brasil, nove poderiam ser evitadas, com adoção de medidas efetivas pelos sistemas de saúde públicos e privados. Embora de 1990 a 2015 a taxa de óbitos maternos ter reduzido, vem aumentando a partir de 2013, passando de 62,1 para 64,5 óbitos para cada 100 mil nascidos vivos, em 2017, índice alto segundo a OMS, que considera normal uma taxa de 30 para cada 100 mil nascidos vivos. Para termos uma melhor ideia, em números absolutos, o Brasil registrou 1.463 mortes maternas em 2016, fato que necessita de constante reflexão e ações conjuntas dos poderes e instituições afins. Nesse sentido, foi incluído no calendário médico e ministerial da saúde o dia 28 de maio como Dia Nacional da Redução da Morte Materna, que coincide com o Dia Internacional pela Saúde da Mulher, visando ações e reflexões sobre o tema.   

Lídia já não pode mais usufruir disso, nem sua filhinha também pôde sobreviver para depois ser mãe, contudo, há outras tantas mulheres que afeitas ao papel de ser mãe, engravidam para, como mãe se realizarem ao ver o doce e sereno sorriso de seu filho. Lídia se foi, mas seu retrato aliado a este texto não é menos que um protesto aos absurdos casos de mortes maternas divulgados ou escondidos todos os dias em nossa realidade, na realidade do mundo.

Com essa postagem do caso Lídia também queremos homenagear a todos as mães que assim como ela não tiveram o direito de ser mãe garantido. Por fim, fica do seu rosto sereno e mudo, a esperança de dias bons e felizes a todas as grávidas e a todas as mães.

Compartilhar nas redes sociais:
Publicado em Edgar Moreno
Segunda, 27 Abril 2020 19:21

O DIA "D" DUM ARMAZÉM DE SUCESSO

Bacabal do Maranhão. Sábado, 19 de julho de 1958. A singela pracinha de Santa Teresinha, hoje chamada Praça Silva Neto, bem no centro do antigo e bem falado Bacabal de outrora, acolhe uma aglomeração de pessoas, que disputam espaço entre os tabuleiros de tecidos, confecções e eletrodomésticos. A casa é alta e a fachada, de cor creme, ainda fresca, impregna os traços de uma usina de arroz. As paredes elevadas e fornidas de adobe, o reboco forte e a tinta nova, dão ao prédio um aspecto renovado e imponente perante outras casas comerciais da cidade. As portas, largas, se agigantam para cima, assim como as paredes, com suas beiradas e detalhes brancos em alto relevo a subir rumo ao céu, e lá em cima, ao centro, o desenho de uma estrela, numa profecia simbólica de que ali nascia uma estrela mercantil nos céus da nossa querida Bacabal. Daí ganharia depois outras dimensões.

Tinha uns sessenta dias atrás que aquelas portas eram apenas um dos três galpões da Usina Dois Irmãos, alugado que fora para fins logísticos de ofertar ao Vale do Mearim o que os homens da cidade e as donas de casa precisavam, como fazendas e máquinas de costura, “roupas feitas”, cadeiras de macarrão, bicicletas, colchões, entre outros produtos bem característicos dum tempo em que nossa Bacabal alçava voo nos “Anos dourados” dos fins dos anos 50.

 Agora estava sendo inaugurada na cidade uma nova opção de empório, o Armazém Paraíba, cuja inscrição na parede era uma clara referência às origens de saída e determinação dos seus proprietários para cá, ao Mearim. Chegaram. Estabeleceram-se. E o momento era muito diferenciado dos demais comércios e dos tempos da época. O ambiente era alegre, festivo, memorável, bom de comprar e animado para se ver.  Desde cedo do dia, o moleque Nilo Lago já acordara com os estouros dos foguetes. O dia ia ser bom, pois ia ter até corrida de bicicletas do Paraíba até o Ramal, com premiação e tudo mais. Cá fora as paredes da loja se enfeitavam com “cortes” de chita, e lá dentro, no lugar do forro, panos coloridos decoravam o teto largo e fundo do barracão. A ordem para abrir foi dada pelo Seu Joca. Foi o vendedor e propagandista João da Costa Ramos quem abriu. E o fez com muita emoção. O povo entrou. Estava inaugurado o primeiro Armazém Paraíba da história.

Embrenhados na festa, o povo sorria, comprava, bebia e jogava conversa fora e já não queriam ir-se. Os clientes, autoridades e curiosos se sentiam altamente felizes e privilegiados em estar participando da inauguração daquele que, pelo jeito seria o armazém mais popular da cidade. No terreiro, uma camionete de carroceria de madeira e um megafone sobre a cabine anunciava o rasga-rasga de preços baixos, vendas no fiado e produtos da melhor qualidade. Enquanto isso, a pracinha, no inverno alagada, era uma festa só. Gente indo, gente vindo, os homens com suas calças simples e sociais, as mulheres com suas saias longas e fartas, e as crianças vestidinhas de babado ou calçõezinhos curtos. Os homens da roça, alguns com sua senhora a passar a pé ou de bicicleta, e, enxergando pela aba do chapéu, amarram seus animais e entram no empório para ver o que ali se sucede. Moços novos e até moleques encostam sua Monark ou sua Caloi enlameada das paragens e da própria praça sem calçamento, e todos se somam na multidão. O povo é uma curiosidade só, mas já parece afeito à proposta do armazém e seus donos, que ainda desconhecidos da população, se misturam ao povo cheios de carisma e simplicidade. A notícia correra, mas nem a todos alcançou. O fato começa a ser o motivo das conversas nos pés de balcões, à beira do rio, no carregamento de cargas, nas conversas urbanas e rurais e nos caminhos a fora. Bem perto da Rianil, uns “cumpades” cogitam de quem seria o empreendimento; e, ali vizinho, na porta da Souza Cruz e também em frente ao Dr. De Paula, o assunto era o mesmo. Mas quem seria esse comerciante novo que chegou com aquilo tudo? Havia de ter muito dinheiro e coragem. Havia de ter também uma estrela para o negócio. Isso era o que podiam se perguntar os comerciantes das lojas tradicionais. A conversa tanto girou que chegou a um funcionário, o qual assegurou sobre os donos, mostrando entre o povo, os irmãos Valdecy e João Claudino, protagonistas mentores daquele marcante evento. Um deles, o Seu Joca, já se punha perto do megafone para, ele mesmo dar sua colaboração na propaganda inaugural da loja. Ele era assim? Sempre presente, simples e contribuidor? Sim, isso mesmo, teria sido a resposta.

O povo veio, gostou, comprou e foi-se feliz para a sua família contar as boas-novas. Quanto à cidade, essa abraçou com afeto os novos comerciantes vindos de Cajazeiras fazer vida aqui no Mearim. Vieram. Acharam graça em nossa terra e nossa terra neles. Aqui fincaram a pedra fundamental de um grande empreendimento que se consolidaria futuramente passo a passo num grande negócio, com muito trabalho e determinação. O sonho estava se realizando. E muito bem.

Terminada a festa, uma câmera fotográfica eternizou o feito numa foto simples, mas significativa, uma prova rara do momento que seria a inspiração de muitas histórias e combustível para muitas outras lutas e vitórias dos irmãos Claudino, a partir de um singelo armazém fundado em Bacabal, mas denominado Paraíba.

Compartilhar nas redes sociais:
Publicado em Edgar Moreno

Telefone

99 3621-6216 99 99107-5401 99 98117-0791

E-mail

contato@cuxa.com.br