Segunda, 03 Agosto 2020
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Neste domingo que é dedicado às mães, me pego olhando esta foto e particularmente cada traço dessa mulher-mãe, que vamos chamá-la Lídia, uma moça linda, simples, natural, bela, parecendo uma atriz. Na pose dá a impressão que ela está tirando uma selfie, mas não é. A foto é antiga e não sei precisar o ano, mas é quase certo que a década possa ser a de 1980, quando o mundo parecia outro. E de fato era.

Lídia adorava tirar retratos, escrever músicas em seus cadernos e até nas páginas em branco dos livros que lia. Adorava cantar "cantigas" de Júlio César, Roberto Carlos, José Augusto, Diana, entre outros cantores das antigas. Essa mulher-mãe não é apenas uma imagem, ela existiu um dia entre nós, ainda existe em muitas lembranças e existirá para sempre em muitos dos nossos corações.

Sendo ela de dezembro de 1958, hoje estaria com seus completos 61 anos, e é certo que estaria tão linda e tão jovem quanto na foto, pois tinha seu grau de vaidade e zelo pessoal, era sonhadora e amava a vida e as amizades.

Essa jovem mulher, é o retrato daquelas filhas que se tornam mães solteiras por via dum relacionamento casual, em que, após a gravidez tomará de conta do próprio filho, sozinha ou quem sabe com a ajuda da família. Ela tinha 25 anos quando isso aconteceu. Não era mais uma adolescente e como ocorreu na gravidez, tudo iria dar certo, mas não foi bem isso que aconteceu. No dia "D" de Lídia se tornar, pela primeira e única vez uma mãe no leito de um hospital público, na hora do parto, ocorreu um triste fato chamado de morte materno-fetal que ceifou uma filhinha que não viu a luz do mundo e uma mãe que não pôde ver uma única vez sua filha. Lídia não se foi desta vida, levaram-na, em tão precoce mocidade no dia 26 de outubro de 1984. Doído para a família e amigos foi suportar que não foi por complicação oriunda da mãe ou da bebê de seu ventre, mas por falta de estrutura básica às parturientes como analgésicos, anestesista e até a própria ampola de injeção e outros itens como esparadrapos, comprados que foram em farmácia pela família da jovem. Mas injusto ainda foi ver a "causa mortis" na certidão de óbito: morte natural. Era a primeira vez que um adulto e tão jovem morria naquela família. Essa crônica dor despensa até comentários.

Se, todavia, após 35 anos da morte de Lídia e sua filhinha, os detalhes do luto e da dor já não fazem diferença, é pertinente dizer que o caso fará sempre parte de uma triste estatística que precisa ser refletida sempre.

Quantas outras mães como Lídia não estão a existir por aí a fora! Quantas Lídias já deixaram o sabor amargo da morte em suas famílias, nas últimas décadas, na vida, nesses tempos por agora, aqui, ali e acolá!...

Isso requer reflexão. A cada ano milhares e milhares de mulheres engravidam no Brasil e no mundo, e não importa quem seja, ela precisa ser mãe de modo seguro e humanizado.

Para não ficar apenas no lirismo de uma história triste, trago alguns dados estáticos. Segundo o Ministério da Saúde, de cada dez mortes maternas no Brasil, nove poderiam ser evitadas, com adoção de medidas efetivas pelos sistemas de saúde públicos e privados. Embora de 1990 a 2015 a taxa de óbitos maternos ter reduzido, vem aumentando a partir de 2013, passando de 62,1 para 64,5 óbitos para cada 100 mil nascidos vivos, em 2017, índice alto segundo a OMS, que considera normal uma taxa de 30 para cada 100 mil nascidos vivos. Para termos uma melhor ideia, em números absolutos, o Brasil registrou 1.463 mortes maternas em 2016, fato que necessita de constante reflexão e ações conjuntas dos poderes e instituições afins. Nesse sentido, foi incluído no calendário médico e ministerial da saúde o dia 28 de maio como Dia Nacional da Redução da Morte Materna, que coincide com o Dia Internacional pela Saúde da Mulher, visando ações e reflexões sobre o tema.   

Lídia já não pode mais usufruir disso, nem sua filhinha também pôde sobreviver para depois ser mãe, contudo, há outras tantas mulheres que afeitas ao papel de ser mãe, engravidam para, como mãe se realizarem ao ver o doce e sereno sorriso de seu filho. Lídia se foi, mas seu retrato aliado a este texto não é menos que um protesto aos absurdos casos de mortes maternas divulgados ou escondidos todos os dias em nossa realidade, na realidade do mundo.

Com essa postagem do caso Lídia também queremos homenagear a todos as mães que assim como ela não tiveram o direito de ser mãe garantido. Por fim, fica do seu rosto sereno e mudo, a esperança de dias bons e felizes a todas as grávidas e a todas as mães.

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Publicado em Edgar Moreno

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