Terça, 07 Julho 2020
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Larissa Emanuele

Larissa Emanuele

A vida é tecida de incertezas. Custamos a entender isso. E a nossa mania de acreditar que somos os grandes donos do amanhã, nos faz desenrolar esses novelos apegados aos fios de nossas certezas, mas eles são tão frágeis. Não somos culpados por isso. Para sobreviver, precisamos desenrolá-los atracando a âncora de nossa existência em algum porto. Esse porto é o Amanhã. É o planejamento para a semana, para o mês, para o ano, com o estimado dinheiro, é claro.

E então nossas certezas se perderam, os planejamentos correram soltos, se esfarelaram na forte tempestade da Covid-19, e nós passamos a sentir o que Ney Matogrosso interpreta na canção “Poema”: “De repente a gente vê que perdeu/ ou está perdendo alguma coisa morna e ingênua/ que vai ficando no caminho        que é escuro e frio, mas também bonito/ porque é iluminado pela beleza do que aconteceu há minutos atrás”.

Essa “coisa” perdida são as nossas certezas, tão “mornas e ingênuas”... mas, veja só, algo delas ficou no caminho escuro e frio. Que caminho é esse? É a nossa vida. Ela transita entre o doce e o amargo. Guimarães Rosa, em seu magnífico romance Grande Sertão: veredas, diz que ela – a vida – é assim, aperta e afrouxa, sossega e desinquieta, mas o que ela quer da gente é CORAGEM.

Temos que ter coragem para seguir nesse caminho. Sabe quando dizem por aí que temos dançar conforme a música? Pois é, na verdade temos que caminhar de acordo com o que a vida nos apresenta e oferece. É um grande desafio. O primeiro talvez, – pois há vários deles no curso de nossa trajetória –, seria passar por uma metamorfose, tal qual a borboleta quando sai de seu casulo para experimentar todos os ares da natureza.

A metamorfose, de Franz Kafka, é um grande auxílio para dar início a essa empreitada. Na obra, o protagonista Gregor Samsa, sem causa aparente, transforma-se em um inseto que causa asco e nojo em todos de sua família que, por sua vez, não compreendem o momento difícil pelo qual o pobre homem está passando. E Samsa segue a vida pensando somente em como ajudá-los, pois não se encontram bem financeiramente. Esse pequeno resumo é apenas para ilustrar que a vida sempre nos pega de surpresa, podendo nos transformar em “insetos”, nunca se sabe. Amplie os horizontes da metáfora na leitura. Vale à pena.

Estejamos prontos para a vinda das metamorfoses, elas nos indicam que, assim como a vida, precisamos mudar, novos portos nos esperam.  Vestidos de CORAGEM, e abastecidos de bons LIVROS, pode ser que amenizemos uma provável iminência do “fim”. Refiro-me ao “fim”, pois tudo que estamos vivenciando durante o confinamento social nos faz ter esse pensamento, de que a qualquer momento o mundo pode acabar.

Fortaleçamos a nossa “imunidade” interior na companhia de nossos familiares em confinamento conosco, de bons livros, boas conversas, e de músicas que aqueçam o nosso coração. A Covid-19 é um inimigo invisível que nos ensina a lutar contra ele pensando a vida como uma “Metamorfose”, na qual, após o confinamento, sairemos do casulo de nossas residências, não mais “larvas” ou “insetos”, mas sim, lindas borboletas dançando pelo caminho da vida um novo ciclo da existência. 

 

 

 

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Comemora-se nesta data, além do dia do trabalhador, o dia da Literatura Brasileira.  Saudemos, pois, os trabalhadores da escrita, que labutam, dia após dia, com a vida empírica e ficcional. Um desses grandes trabalhadores chama-se João Mohana. Nasceu em Bacabal no ano de 1925 e por aqui permaneceu até seguir para os estudos secundários na cidade de São Luis-MA. Exerceu as funções de padre, médico e escritor, dedicando-se com afinco a primeira.Mohana escreveu um romance que ganhou o prêmio Coelho Neto da Academia Brasileira de Letras. Sua obra, intitulada “O outro caminho”, apresenta as memórias do personagem padre Eyder, um homem que se tornou padre em dezembro de 1907, e passou pelas paróquias de Viana-MA e Coroatá-MA pelos idos de 1925 a 1930. O sacerdócio lhe parecia uma imposição de sua amada mãe, que desejara ter um filho padre. Ela construía através de atos e palavras o sacerdócio, e arquitetava algumas visões em sua mente, sobre as pessoas dirigirem-se a Eyder depois de ordenado: “sua benção, pe. Eyder, quero me confessar, pe. Eyder”.

Ele se imaginava em sua infância um chofer, mas não padre. A sua meninice fora regada pelas imagens da busca incessante de Maria Sargenta a correr pelas ruas em busca da filha levada pelo rio; pelas brincadeiras com o irmão Neco; as molecagens de menino do interior; e as promessas de sua mãe a Santa Teresa, a fim de que fosse um bom sacerdote.

É nesse contexto que a linguagem da obra é recheada de floreios poéticos, quase “afagos”, tendo em vista que pe. Eyder fortalece o espírito na observação dos pássaros, da natureza e das declinações do dia, além das demonstrações de afeto aos seus pais e ao irmão Neco. Seus relatos são marcados também pela observação dos espaços da ilha de São Luis-MA, a viagem no vapor “Barão”, que o conduzira rumo ao sacerdócio, e os espaços de Viana-MA e Coroatá-MA, em que exerceu a função de pároco.

O protagonista vivenciou um vale de lágrimas em sua existência, um “simbolismo de lágrimas”, como descreveu ao passear novamente por suas memórias, porque o sacerdócio fora uma cruz muito pesada, repleta de adversidades. A sua emoção tonalizou a obra e cadenciou o ritmo de cada lágrima sentida. Em meio a todo esse torpor que padre Eyder vivenciou “outro caminho”.

Dito isso, me cabe destacar que a cidade de Bacabal teve a honra de acolher por um período mínimo padre Mohana (1925-1995), um grande literato de seu tempo, e porque não do nosso, embora esteja esquecido nas prateleiras dos sebos literários. As suas palavras continuam a ecoar pelas mentes de uma ou outra alma vivente, e nunca morrem, dado que revelam “O outro caminho” da literatura e novos caminhos para leituras possíveis a respeito de suas outras obras.

 

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Estávamos no ano de 2011. Raramente eu navegava pela internet e ainda não sabia da grande potência que esse instrumento teria para mudar as relações e o cotidiano das pessoas, principalmente em terras bacabalenses. Nestas raras ocasiões, já surfando por alguns joguinhos e pelas notícias sobre Bacabal, acredito que, por descuido ou artimanha do destino, não sei ao certo, li uma notícia com este título “Bacabalense pede emprestada peruca da presidente Dilma para campanha peruca da cidadania”. Fiquei impactada. Pensei no quanto àquela mulher era corajosa por pedir a peruca da presidente emprestada. Desmanchando-me em curiosidade, senti o impacto da notícia, li a carta de Lúcia Correia e só pensei uma coisa neste momento: preciso conhecer essa mulher! No dia seguinte peguei a minha bicicleta e saí a sua procura. Chegando ao seu bairro recebi todas as instruções que me levaram a sua casa. Uma residência simples, mas muito acolhedora, que permanecia sempre aberta, pois as visitas eram constantes. Dona Lúcia em seus 46 anos de vida refletia sabedoria e um amor incomum pela vida. Na sua face e nas suas palavras, eu enxergava um ser de luz que, com toda certeza, estava só de passagem por entre nós, meros mortais. Quando entrei em sua residência, percebi que algumas senhoras estavam ao redor de sua cama, uma base de cimento alta, que estava coberta com um colchão e uma colcha, rezando o terço, um meio de fazer companhia para dona Lúcia. Tentei me apresentar baixinho e ela sorriu, pediu que eu pegasse uma cadeira e me juntasse às senhoras que já estavam quase finalizando a oração. Em todos os momentos que ali estive dona Lúcia sorria e conversava animadoramente. Fui tomada por uma forte emoção e me questionei: Meu Deus, como ela consegue ser tão forte? Dona Lúcia era tetraplégica e estava com câncer. Pedir a peruca da presidente emprestada foi o único meio que ela encontrou para chamar a atenção das autoridades para iniciar o seu tratamento. Quando me despedi daquela mulher, saí de sua casa chorando muito, na certeza de que voltaria, de que lutaria pela dádiva de sua vida. Nossa amizade começou neste dia e nos dias que estavam por vir se fortaleceu ainda mais. Conversávamos, refletíamos juntas sobre a vida, sobretudo as políticas públicas, tão precárias em nossa sociedade. Ainda tive o privilégio de representá-la na peça “Viver é adaptar-se”, de sua autoria, em conjunto com Zezinho Casanova, sentando-me em sua cadeira, a extensão do seu corpo, que a direcionou pelos mais belos caminhos.  Os dias seguiam o seu curso habitual e dona Lúcia iniciou o seu tratamento. Estava convicta de que tudo terminaria bem, mas infelizmente a vida que ela tanto amava nos pregou uma peça – e não era “Viver é Adaptar-se –, infelizmente. Dona Lúcia partiu. A sua missão havia finalizado e os nossos corações ficaram pequeninos, vazios. Em meus dezesseis anos de existência e falta de experiências, não conseguia aceitar a partida, era doloroso demais me despedir de um ser tão especial. Eu ainda não compreendia que dona Lúcia era infinita. Hoje, já com vinte e cinco anos de constante aprendizado, percebo claramente os seus infinitos espalhados em terras bacabalenses quando me deparo com aqueles que lutam pela sua existência na nossa selva de pedra, aqueles que desejam dias melhores e lutam para que sejamos mais humanos e unidos. Nestas pessoas eu enxergo nitidamente os ideais de dona Lúcia, que humildemente espalhou-se deixando pedacinhos do infinito de si mesma.

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Caros leitores, juninamente falando, ofereço-vos um conto literário, escrito por mim, para que vossos corações jamais se esqueçam da alegria e do encantamento que o mês de junho oferece.É tempo de guarnicer em casa. Por isso, nada melhor que guarnecer a imaginação com a leitura. Muito em breve nos encontraremos entre quadrilhas e boizinhos, quitutes e sorrisos.

 

Na linha do horizonte todos os olhos viram o sol ir-se embora e os olhos que sequer volviam-se ao céu também se obrigaram a ver o espetáculo. Tal qual uma obra de arte, essa amplidão apresentava prenúncios do mês de junho, quando a lua se desmancha em graça, fingindo brincar com as estrelas, oferecendo luz para abrilhantar a passagem do boizinho pelo terreiro. Ela pede ao que vento impulsione o balanço das índias e das matracas dos caboclos de fita, de pai Francisco e de mãe Catirina. É junho, meu camaradas, puxando o fole de um dia branco, de dias auspiciosos para aquecer a fogueira dos corações contritos com Santo Antonio, São Pedro, São João e São Marçal. Nicole escreveu todas essas palavras no momento em que estava sentindo o cheiro da noite. Parece loucura, eu sei, mas os dias se apresentam para ela, incrivelmente distintos dos demais dias do ano, porque o seu coração bumbava, pululava e ficava todo faceiro quando se encontrava com o boizinho. Nesse doce encantamento, com a emoção embriagada, ela buscava uma parcela de infinito. Tão contrita estava com essas divagações que um passeio pela praia lhe traria uma canção sobre esses encantes do Maranhão. De repente ela viu um homem com sua percussão, cantava mais ou menos assim: “São João/ Meu São João, Meu São João/ Eu vim pagar a promessa/ de trazer esse boizinho para alegrar sua festa/ olhos de papel de seda com uma estrela na testa”. Nicole esfregou os olhos, não conseguiu acreditar que era Papete, com seu típico chapéu branco, camisa e calça de mesma cor. Ele percebeu sua presença, feliz da vida porque tinha público novamente, já estava cansado de tocar somente para dom Sebastião e seu séquito, queria mesmo era gente de carne e osso, gente que faz a brincadeira do boizinho acontecer, seja assistindo, costurando, batendo matraca, dançando. Nicole estava muito emocionada, Papete surgiu do  reino de dom Sebastião, do touro encantado com a estrela na testa e de Humberto de Maracanã. Quando ele terminou de cantar, despediu-se, pois já estavam lhe chamando, era hora de voltar. Sumiu feito passarinho que alça voo por entre as nuvens. Antes de partir ele deixou com Nicole um séquito melhor, era o batalhão de nome “Junho encantado” repleto de índias guerreiras, caboclos de fita, pai Francisco e mãe Catirina, a burrinha, o amo e os matraqueiros que em coro cantavam: “Ê boi, Ê boi, Ê boi...”

– Nicole!  Dona Natalina chamou e nada de a filha acordar. Depois de cutucá-la a senhora sentenciou:

 – Ô Nicole, minha filha, te levanta! Já te chamei foi muito e nada. Se tu não levantar agora tu vai perder a apresentação do boi aqui na porta. Estão fazendo uma homenagem para Papete e para o seu Humberto de Maracanã. Deram o nome de Junho Encantado.

Nicole acordou, sorriu tanto... os seus olhos castanhos, banhados pelas águas do Mearim ficaram cintilantes. Certos sonhos são tão encantados quanto o mês de junho.

 

 

 

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