Quinta, 21 Janeiro 2021
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Edgar Moreno

Edgar Moreno

SOBRE O AUTOR DA COLUNA

Edgar Moreno é cronista e escritor bacabalense, heterônimo do poeta Costa Filho, membro da Academia Bacabalense de Letras. Em abril, estreou com a coluna “Cronicando...” no site Cuxá. Escreveu ou escreve em outros jornais e sites, publicando eventualmente em suas redes sociais.

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Tarde de domingo, XVII-I-MMXXI

 

Minha doce e longínqua Adelaide,

 

A priori quero me retratar do termo “longínqua”, escrito aqui de ímpeto e sem candura, ainda que sensato, pois mesmo que longe fisicamente, estás sempre dentro do meu coração, tão mais perto quanto possas imaginar. Disso sei que sabes e muito bem, e bem mo compreendes.  

Agora, por um momento, me vejo agarrado à linha do tempo e noto que estamos no limiar de uma nova década, a terceira do século XXI, começada em 01.01.2021, ciclo a concluir-se em 31.12.2030. Até lá, minha Adé, temos muito a nos amar, a escrever... cousas que muito nos identificam e que somente a natureza em sua formosura, sabedoria e romantismo nos pode compreender.

Esta nova década, de repente me veio atiçar a lembrança de algo muito significativo entre nós: nossas cartas. Isso mesmo, as Cartas de Edgar à Adelaide, essa forma de comunicação tradicional e nobre que teimamos em manter para documentar nosso amor e sentimentos, nossos achismos e filosofias, nossa caligrafia a punho e papel a gosto, nossa marca, enfim.

Ah, minha querida, pudera as missivas serem nossas eternas companheiras, face a um mundo cada dia mais moderno e robótico, um tempo que rouba as mais singelas originalidades e as joga frente às deformações hodiernas. Não, minha Adé, não somos robôs, nem nunca seremos. Por isso, escolhemos as cartas para nelas eternizarmos nosso amor e nossa história, doutro modo não nos contaminar da virtualidade exacerbada, que viraliza entre os homens, tornando-os não raro sem alma e sentimentos.

Não queremos isso para nós, minha doce Adé! Nossas almas e sentimentos hão de reinar livres na escrita de nossas missivas enquanto assim pudermos. E assim queremos, logo eu que sou um tanto resistente às mídias, só aderindo tardiamente ou por força maior, e de igual modo tu, em tua maneira adelaidiana de convivência entre o moderno e o tradicional, afinal não somos simplesmente aldeotas; somos nobres e finos, sobretudo nas coisas do coração.

Mas tornando às cartas no tempo, elas já vazam a casa de uma década, posto que, salvo me engane, começaram por volta de 2009, quando já aí estavas, na Europa dos teus sonhos, e eu cá, a te merecer nosso amor. Isso merece comemoração: Palmas! Palmas, minha Adé! Abraços e beijos remotos!

No mais, o que de fato importa é que somos um do outro, com ou sem distanciamento, em função da própria distância ou da pandemia, que segundo noticiam, já consta em segunda onda também por aqui no Brasil, sobretudo em Manaus, a porta da nossa bela e tão cobiçada Amazônia. Mas não falemos de pandemia ou de Amazônia, falemos de nós, de nossa vida, do nosso amor, de nossas cartas.  

Se, pois, esta missiva não nos serve como comemorativa de dez anos, o é com efeito estreante da terceira década, isto é, nossa primeira carta de 2021. Digo nossa porque sem tu, minha Adé, jamais existiriam tais escritos, posto que és deles a grande inspiração e a doce destinatária.   

Vê, tu, minha querida, a manhã deste domingo veio com sol, e mais tarde o tempo foi fechando até chover razoavelmente farto. Já agora, às 17:05, continuam a cair gotas grossas, mas fracas sobre o meu telhado, cousa que me faz notar que tenho uma casa, e mais que isso, um lar.

Mas creio que essas questões meteorológicas não definem muito essa vontade de escrever. Talvez a defina o próprio dia, que sendo domingo, me chega muito mais propício para certas criações, como a escrita. 

Talvez por isso é que hoje, me tenha vindo uma inexplicável vontade de escrever alguma coisa, embora não soubesse o quê, nem a quem, embora ontem mesmo tenha eu e um comparsa das Letras, composto um poema e digitado um texto de Naftáli Atsoc, um salmista moderno ainda incógnito a quem costumo ler. Agora posso compreender: era meu coração inflamado pela tua saudade. 

Pois cá estou, cheio desse sentimento, transbordante feito o champanhe na taça. Mas digo-te, como em francês diria nossa Edna Frigato: Le champagne français ne me satisfait pas, quand j'ai soif de toi.” (Champagne francês não me satisfaz, quando minha sede é de você).

Já até suponho, minha querida Adelaide, qual seria tua resposta. Ei-la, pois, buscada que foi de Anna Flávia Schmitt Wyse Baranski: Lire que tu me manques apparaît dans le toit de ta bouche comme une bulle de champagne. Tu me manques beaucoup - il y en a beaucoup ... (Ler que você sente a minha falta estala no céu da boca tal qual uma borbulha de champagne. Saudades não me faltam - sobram...)

Essa saudade, que não transparece outra cousa senão o nosso amor, até me faz esquecer da minha breve lista de notícias para te deixar a par de como vão as cousas por esse Brasil, por esse Maranhão e por esse Bacabal. Contudo, vejo que isso já não se me parece tão propício, talvez por força desses tempos tão difíceis, que nos tiram o sossego, estressam o corpo, corroem a alma e frustram relações. Então, minha Adé, não falemos de pandemia, pois que isso puxa a política; e a política puxa a corrupção; e a corrupção, a injustiça; e a injustiça, a dor, a miséria, a morte...   Fiquemos com a vida, com as cartas, com o champanhe e o nosso amor.

No mais, o tempo sempre foi e assim o será: favorável e desfavorável; para uns, bom, para outros, péssimo; a uns, um paraíso, a outros o próprio inferno... Nem o tempo, nem a vida, nem nada, nunca há de ser igual a todos. Só não percamos nossa fé, pois que ela é um dom de Deus.         

E para não terminarmos sem comemoração, concluamos com o que disse Napoleão Bonaparte: Champagne! Dans la victoire vous le méritez, dans la défaite vous en avez besoin (Champanhe! Na vitória você o merece, na derrota você precisa).

 

Com carinhos do teu

Edgar

 

 

Post Scriptum: Quanto à nova década, como entraste? Eu, na igreja com a família.

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Sexta, 01 Janeiro 2021 15:10

COVID-19: UM INFELIZ ANIVERSÁRIO

Trinta e um de dezembro é uma data negativamente marcante para a humanidade. Faz exatamente um ano do surgimento do Novocoronavírus, que ocasionou a atual pandemia a qual já ceifou a vida de mais de 1 milhão e 800 mil pessoas pelo mundo. Isso nos leva a considerar o fato como um infeliz aniversário dessa doença contagiosa, a covid-19, que continua a assustar a comunidade mundial, espalhando medo, morte, ganância, jogos de interesses, conflitos e outros males de ordem físico-biológica, psicológica, ético-moral, etc.

A princípio foi chamado de vírus da China, vírus de Wuhan ou vírus chinês por ter surgido na China, especificamente na cidade de Wuhan, na província de Hubei, através de pessoas que tiveram alguma associação a um mercado de frutos do mar, segundo divulgado pelo governo chinês.

A primeira vítima foi um senhor de 61 anos, que faleceu de parada cardíaca em 09 de fevereiro com sintomas de falta de ar e pneumonia grave. Já então havia 41 pessoas infectadas. Daí em diante, os casos só aumentaram e a doença se proliferou rapidamente por todos os continentes, levando a OMS a declarar como pandemia em 11 de março.

Científica e provisoriamente o vírus foi nomeado pela OMS de 2019-nCoV, depois SARS2-Ncv, e por fim, SARS-CoV-2, baseado em outro coronavírus.

Como doença foi nomeado pela OMS de "covid-19". Essa medida visa a que o vírus não seja associado ao lugar de origem, no caso a China, como ocorreu com outros vírus como o da "gripe espanhola" (associado à Espanha), "gripe suína" (porcos), "gripe do frango", etc.

Todavia, o "vírus chinês" sempre levantou polêmica em torno das causas e motivos de sua disseminação. Fala-se que foi criado em laboratório e que por trás da doença há ideologias de poderio econômico e interesses os mais diversos. Segundo Luc Montagnier, vencedor do Nobel de Medicina de 2008, o coronavírus SARS-CoV-2, causador da covid-19, foi criado em um laboratório de Wuhan, na China. “A história de que ele surgiu em um mercado de peixes é lenda”, diz. Premiado em 2008 com o Nobel pela descoberta do vírus HIV nos anos 1980, Montagnier disse que o laboratório da cidade de Wuhan se especializou nesse tipo coronavírus desde o início dos anos 2000 e, apesar de ser um local de alta segurança, teria deixado escapar a nova cepa do vírus.

Criado em laboratório ou não, oriundo ou não dos frutos do mar, o vírus é uma realidade. Isso é fato. Um fato que ganhou força pandêmica, suplantando as estatísticas das demais doenças e epidemias, um vírus silencioso que tem sacudido as estruturas da ciência, do poder econômico, político e social.

A corrida pela cura, com a criação e comercialização de vacinas é apenas uma variante dessa novela dramática. A doença, desde o seu início tem mudado hábitos, proporcionado o aumento do consumo de produtos e serviços ligados à doença, e com isso, o ágio de preços, a busca desenfreada pelo lucro. Enquanto os governos discutem a questão, o desentendimento se agrava em torno do assunto nas diversas esferas de administração e convivência. Os cofres governamentais secam diante dos auxílios e despesas inesperadas, gerando conflitos os mais diversos, enquanto alguns simplesmente torcem pelo colapso em nome do poder. Por outro lado, políticos corruptos usaram e vão usando de má fé, desviando as verbas da covid-19, negligenciando direitos e deveres para com o povo e a moralidade, contribuindo para a catástrofe pandêmica. Tudo isso, sem falar nos milhares de entes queridos mortos ou matados em nome da doença, enterrados às pressas e sem a presença de seus parentes. Sem detalhar aqui cada dor, cada medo, cada distanciamento, cada perda, cada saudade, cada sofrimento e a angustiosa interrogação: Quando isso vai acabar?

Fiquemos por aqui com nossa própria reflexão.

Que se vá a covid de 2019 e venha o 2021 "com vidas" saudáveis e renovadas.

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NO DIA DO MÚSICO, nossa homenagem a todos os músicos, em especial aos músicos, musicistas, produtores, compositores, intérpretes, bateristas e todos os -istas ligados à música bacabalense.
Como sabemos, Bacabal respira música e poesia, duas vertentes que se ligam pelo ritmo, pela rima, pela forma, pela mensagem e outras formas artísticas ou de realização.
Para quem esqueceu, a intimidade de Bacabal com a música não é de hoje, é uma tradição que atravessa gerações. A criação da Banda Santa Cecília pelo maestro e cartorário Almir Garcez Assaí, oficializa com louvor a presença da música em nosso meio. Por sua vez, a Escola de Música Almir Garcez Assaí (EMAGA) tem uma trajetória de altos e baixos, mas no fim, gloriosa, tendo já formado centenas de discípulos espalhados pelo mundo a fora.
A isso se somam os corais e vocais das igrejas, os shows aqui realizados por grandes nomes da música local, nacional e internacional, os festivais oficiais e escolares, que revelaram grandes nomes da MPBac, os aprendizes que se tornaram mestres, os tantos clubes, bares e casas de shows, os variados eventos que só se dão através da música, a exemplo do carnaval, das festas juninas, do Bacabal Folia, da Paixão de Cristo, do Natal, entre outros.
São muitos os nomes que bem nos represetam em seus mais diversos estilos e funções musicais, que para não incorrer em injustiça deixo de citar nomes para lembrar alguns trabalhos como Os Canários do Norte, os LPs Nossa Voz I e II, Papete, nosso ícone em nível internacional, as bandas Brito Som Seis, Carlos Miranda Show, The Blives, Los Magos, Sambinha e Cia, entre outras.
Sem sombra de dúvida, Bacabal é uma cidade privilegiada e reconhecida musicalmente por sua performance musical de boa qualidade.
Quem gosta de uma boa música sabe que não é preciso ir longe para encontrar poéticos compositores, afinados intérpretes e talentosos musicistas, quer no estilo solo, dupla, trio ou um grupo musical inteiro.
Resta-nos brindar ao som de nossas próprias notas musicais por esse Dia do Músico, esse alguém que sabe muito bem o valor da música em nossa vida.
Parabéns, a cada um de vocês, individualmente!

 

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Segunda, 12 Outubro 2020 13:15

Crônica para as crianças de ontem

“Triste de quem não conserva nenhum vestígio da infância.” (Mário Quintana)

Andei voltando há algumas décadas da vida e cheguei a uma doce conclusão: o tempo de criança é simplesmente a mais gostosa e inesquecível fase da vida. Há quem diga que é a adolescência, a juventude, a maturidade, a velhice, outros consideram que é o agora, outros ainda, que é quando se tem paz, independência, ou quando a gente simplesmente não se importa com o que dizem de nós outros. Da minha parte, “eu fico com a pureza da resposta das crianças” e teimo em achar que a infância é o início da felicidade do ser humano e o palco de suas melhores lembranças, embora às vezes essas fiquem perdidas pelo caminho da vida. Tirante isso, são tantos os momentos singelos e marcantes, que é impossível classificar o mais doce, o mais louco, o mais fascinante, o mais desesperador, o mais especial, o mais besta... Quem não lembra aquela queda, aquela briga, aquela censura, aquele amiguinho, aquela tia da escola, aquele dia especial de festa? No fim, cada um traz suas próprias lembranças e todos se identificam felizes com esse tempo bom de outrora. Como já disse nosso menino Casimiro de Abreu: “A velhice tem gemidos — A dor das visões passadas; A mocidade — queixumes; Só a infância tem risadas!”.

Então, não há o que questionar. Acabou-se a fase dos porquês e não há poréns ou entretantos, só há uma verdade: o tempo de criança é o mais significativo e feliz da existência humana. O mais significativo e feliz. Desse jeitinho mesmo: no grau superlativo relativo de superioridade, como reza a gramática, ou como diria José Dias, em Dom Casmurro, de Machado de Assis, é “significabilíssimo” e “felicíssimo”.

Pode até não ter sido assim tão bom, mas quando a fase adulta nos bate à porta, a infância ressurge mais linda e saudosa, e passamos a recordá-la como um filme nostálgico em preto e branco, e, por isso mesmo, mais especial que o trágico e colorido filme do nosso hoje. É aí que nos vemos diante duma triste verdade: "Eu era feliz e não sabia".

O fato é que na infância nossas preocupações eram outras, bem singelas e imediatistas, como o medo de apanhar por ter quebrado uma xícara, o anseio de ter o brinquedo dos sonhos, a vontade de comer todos os sorvetes do mundo, o pavor de vacinas, [não, isso nunca acaba, apavora todas as idades], a alegria de vestir logo a roupinha nova, a sensação da descoberta de que existe “pé de arroz”, mas não existe “pé de carne”, entre outras coisitas que para um adulto significa apenas uma bobagem. Na verdade, isso é apenas uma bobagem de adulto, pois são essas cenas, essas pueris cenas que guardaremos no baú de nossas mais doces lembranças infantis e que, efetivamente, representam verdadeiros tesouros.

Há quem diga que recordar o passado é sofrer duas vezes, mas isso não se aplica aos tempos de criança. Defendo que reviver a infância nunca vai ser sofrimento; mas sim, uma nova chance de ser feliz e aprender sob a didática da inocência e da verdade.

Talvez não seja eu a pessoa mais indicada para falar de infância. Mas quem a teve plenamente? Fez tudo o que queria? Ignorou as limitações dos pais e da vida? Quem também nunca correu, tombou, caiu, chorou, levantou e seguiu sorrindo para a próxima brincadeira? Quem nunca se aglomerou no terreiro do vizinho para brincar de roda, de anel, de guerra, de desfile, de contar carros, de pega-pega, de liga-desliga, de contar histórias?

Cada adulto tem sua grandiosa historieta de menino. E isso basta para se falar sobre a infância. O mais importante é não deixar morrer a criança que trazemos dentro de nós. Sejamos adultos, mas não sejamos hipócritas e ingratos com a voz infantil do nosso coração, pois ela é ainda a cura para muitos dos nossos males. Por fim, não sejamos apenas grandes, sejamos grandiosos como o são as crianças, deixando de lado nossa birra e refletindo o que sugere o provérbio chinês: “O grande homem é aquele que não perdeu a candura de sua infância”.

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No dia 12 de agosto, é comemorado o Dia Nacional das Artes. E quando se fala em Artes, se fala em cultura; quando se fala em cultura, se fala em povo; quando se fala em povo, se fala em produção e realização cultural, pessoal e comunitária; e quando se fala em realização cultural, vêm-nos à mente um conjunto de atividades artísticas dos mais variados tipos como o teatro, a pintura, a música, a literatura, a dança, o cinema, a fotografia, o artesanato, a cerâmica, a arquitetura, o circo, a televisão, as comunicações, entre outros formatos que revelam a criatividade, o talento e o esforço do ser humano quando a palavra-chave é criar.
Esse conjunto de imagens que enchem os olhos de qualquer artista e até dos leigos da arte, nos leva a lembrar de produções artísticas como o sorriso de "Monalisa", de Leonardo Da Vinci e dos quadros do bacabalense Roberto Lago; de "O pequeno Príncipe", de Antoine Exupéry e das poesias dos imortais da Academia Bacabalense de Letras; da "5ª Sinfonia", de Beethoven e da tocante música "Sementes de um poeta", do nosso Assis Viola; da Torre Pizza, na Itália e da nossa singela "Vila Maria" em frente à prefeitura; do cinema mudo de Charlie Chaplin e de "O Caminho Proibido", de Rogê Francê; do Cristo Redentor, no Rio de Janeiro e da estátua de O De(u)sconhecido – por assim dizer – erguida em frente ao Armazém Paraíba; do famoso drama "Romeu e Julieta", de Willian Shakespeare e do dramaturgo brasileiro Nelson Rodrigues e da peça "Bacabal nos Braços de Artistas", da nossa Dalva do Teatro; dos vasos gregos e indígenas e das peças artesanais de Malaquias, em frente à BIASA; enfim, essas produções culturais nos levam a lembrar de feitos artísticos que só enriquecem a história de um povo. E ao lembrarmos do povo, lembramos de nossa terra, de nossa gente, de nossos costumes e tradições, de feitos e fatos culturais de outrora vivenciados entre nós.
E nessas lembranças, lembramos de nós mesmos, os artistas e de sua arte. E ao lembrarmos da arte local, vemos que ela é rica e variada. E lembramos que ontem ela parecia tão viva, tão sólida, tão rica, tão bela, tão ela... Era, num pretérito que já se fazia imperfeito. Todavia, como um sonho, acordamos e pasmamos diante de uma triste e pior realidade: nossa arte está morta. Morta em produção, morta em diversão, morta em oportunidades, morta em realização, morta por não ter apoio; morta de querer e não poder; morta de poder e não quererem, morta em quase tudo, morta de vergonha...
Então ficamos a perguntar: Cadê nossa cultura? Cadê a prefeitura? Cadê a postura? Cadê nosso Conselho? Por que não o quiseram? Cadê o dinheiro? O gato comeu?
Oh, cidade sem sorte ou cidade sem lei? Princesa do Mearim ou Gata Borralheira? Bacabal ou Bacabaúúúúúh? Cidadezinha sem-vergonha! Na verdade, vítima. E ela apenas chora diante das perguntas que não querem calar: Para onde caminhas? Onde queres chegar? Aonde estão te empurrando? Por que não reages?
São tantos os teus problemas que já não os conta mais e já não resistes tua própria sede. Às portas do teu centenário, atravessas tua pior crise. Era para ser o contrário, pois não mereces isso. Não mereces mesmo. Nunca mereceste. Sempre foste gentil e hospedeira ao nativo e ao estrangeiro. E por que te matam em troca do poder e da ganância? Sempre botaste fé em quem tem te decepcionado. Em troca de teu leite estão te sugando, te sucateando e rindo de ti e do teu povo na tua cara.
E ainda vem essa de Dia Nacional das Artes!... Quanto a isso, não resta esperar nada, resta apenas um fio de lembranças dos feitos imperfeitos de ontem. E hoje, comemorar o quê? Afinal, arte é uma m... que não dá lucro, só despesa.
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Texto de 13.08.2019 por #EdgarMoreno - heterônimo de Costa Filho, membro da Academia Bacabalense de Letras
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Domingo, 02 Agosto 2020 17:47

O TEMPO É IMPROVÁVEL

O sábado é quente e seco. O vento, feito uma brisa, traz uma leve saudade de ontem. Mas não está mais aqui aquele menino que ficava a olhar urubus voando pelas altas nuvens em pleno sol escaldante. Os urubus são outros, as nuvens são outras, embora pareçam as mesmas; o menino é outro, os tempos são outros.
Só o sol continua escaldante. E aquele menino, agora com suas próprias cãs, pensa uma frase de improviso: "O tempo é improvável". E, de fato, o é. O tempo não se vale de nada para seu amanhã que não seja a própria mudança e indefinição das coisas, apenas elas vão acontecendo ou não, conforme a ideia, a ação humana e as circunstâncias da própria vida. Mas o tempo, este não para para amarrarmos o cadarço.
Os próprios escritos são o reflexo dessa improbabilidade temporal. Ora, pois, se até este rabisco me era improvável até há pouco, e já agora me está vindo de paraqueda, gratuito, sem maior motivo, que não o de existir. Apenas o vejo se construindo como lá em cima se juntam as nuvens em desenhos surreais.
Contudo, nada nos vem ou nos vai por acaso. E o sol quente nesta sombra do vizinho seja talvez o fato inspirador e casual, mas não único. Tenho ainda às vistas um urubu na ponta do poste e outros no ar a me reflorescer a memória que de ontem subsiste. Passou-me também um avião na traçada linha aérea por sobre a Vila Kühn. Mas na aeronave, nenhuma inspiração. Antes, a encontro na cadela ao meu lado, que é a realidade mais próxima a me vigiar na leitura de "A música".
Tudo o mais é este cenário que necessito para largar a leitura e me apegar à ideia da escrita para assim não perder o registro desse momento doce e sereno do existir. E não apenas isso, mas ainda ganhar meu dia com algum texto sem maiores critérios e intenções, apenas intrometido, mas que ainda assim realiza, pois assim é também o tempo: improvável, mas existencial e por algum motivo, útil.
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(#Costa Filho, #Crônicas, 2020, ago, 01)
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Segunda, 20 Julho 2020 15:11

A AMIZADE TEM DIA?

Hoje, 20 de julho, é oficialmente, o DIA DO AMIGO, mas sabemos que a amizade é algo milenar, que atravessa gerações e supera as 24 horas do seu dia oficial. Quando então é o Dia da Amizade? Ontem, hoje e amanhã. E os motivos podem ser dos mais bestas e ocasionais até aos festivos e programados. Não há uma lei específica para na vida se encontrar um amigo ou encontrar-se com eles, dividir o bom papo, o choro, a alegria ou um simples cumprimento. Entretanto, a amizade é algo tão sublime que tem um dia oficial para ser lembrada, refletida, agradecida, comemorada...

Já diz a Bíblia: "Quem encontra um amigo, encontra um tesouro". E de fato, a A amizade é um bem e um dom que todos nós precisamos, independentemente da idade, etnia, gênero, religião, time, nível financeiro, escolar ou qualquer outra diferença. O amigo pode ser de sangue, das horas, de todas as horas ou simplesmente da vida, de um breve momento, embora, às vezes ele caia de paraquedas e fique eternamente no nosso coração.

A amizade é algo coletivo, mas particularmente especial. Cada amigo tem seus amigos, que podem passar a ser também meus amigos e teus amigos. E assim vai crescendo a corrente da amizade.

Cada um dos nossos amigos tem suas próprias qualidades, que podem ser justamente aquelas que lhe completam, mas que também, nem sempre são aquelas que você gostaria, porém, uma das funções da amizade é exatamente compreender essas diferenças. Isso é quem diz se é ou não amizade.

Doutro modo, um amigo não precisa estar 24 horas perto um do outro, e se ele sumir presencialmente, a amizade vai continuar como um elo mágico que traz algo ruim-bom chamado saudade.

Quem tem amigos convém preservá-los, pois uma vida sem amigos não deve ser muito animada, é um tanto vazia. Os amigos são a bagunça que precisamos; a zoada que perturba beneficamente o nosso silêncio; o silêncio que acalma a nossa dor e o nosso estresse; a pessoa que nos une num sentimento fraterno, o doce sentimento da amizade. Enfim, a amizade é uma bênção.

Abraços fraternais a todos os meus amigos.

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Quarta, 15 Julho 2020 00:49

RUA 14 DE JULHO - A ORIGEM DE UM NOME

 Em conversa com Raimundo Sérgio de Oliveira, um ícone da nossa história, a quem estudantes e curiosos recorriam quando o tema era a história de Bacabal, o poeta trovador contou uma narrativa curiosa: a origem do nome da Rua 14 de Julho, a conhecida Rua das Três, que alude a três irmãs que ali moravam e ganhavam a vida na zona meretrícia.

O poeta, meu coirmão da Academia Bacabalense de Letras, todo humorado e bem vestido a pano passado, e sempre com seu guarda-chuva nas mãos, se deleitava nessas conversas sobre a cidade que o acolheu em 1952, vindo de Chapadinha, fazendo da querida Bacabal, sua morada fixa até ir-se de entre nós em 2014. Compare-se aqui o nome da rua com o ano de sua morte.  

Pois bem, não obstante eu estar no mesmo ritmo lento, prosador e detalhista do nosso escritor, vamos ao que interessa, mas já adianto que nem tudo sairá como disse o prosador, em função do tempo e da falha de lembrança, não dele, que tinha uma invejável memória, mas deste cronista que vos escreve.

Pois sim, a origem do nome “Rua 14 de Julho” data da década de 1960 e alcança demandas morais, sociais e administrativas. Estando a cidade em acelerado crescimento populacional, para cá chegavam famílias diversas para fazer vida e desenvolvimento. Por essa época a Rua 28 de Julho já era uma das mais movimentadas da cidade e um reduto dos prazeres da carne de homens solteiros ou infiéis e rapazolas na puberdade. Conforme o poeta, o nome “28 de Julho” derivou de uma rua de mesmo nome na capital São Luís, recheada que era de bordéis, contudo, é quase certo que aquela rua da capital homenageie a adesão do Maranhão, em 1823, à Independência do Brasil em relação à Coroa Portuguesa.

Fica acima explicado sobre o nome da nossa Rua 28 de Julho. Mas quanto à Rua 14 de Julho? O que tem a ver uma rua com a outra? Tudo a ver. Vamos lá. A Bacabal de outrora aumentava em comércios, indústrias, população, lazer e também em prazeres. Como toda cidade em crescimento, é natural que também venha a crescer sua zona do baixo meretrício. Afora a longe e recuada ZBM da Trizidela e a do Maxixe, era famosa a zona da Rua 28 de Julho e imediações. Como esta rua se localizasse bem no cerne do movimento, por onde transitavam cotidianamente pessoas diversas, clientes, senhoras religiosas, crianças e “famílias de bem”, alguns membros da sociedade e igreja se manifestaram contra a permanência da ZBM no centro da cidade, levando a gestão pública e o próprio poeta, que era vereador e influente nas questões de urbanismo, a deslocarem as casas de luz vermelha da 28 de Julho para outro local mais distante da “sociedade”. O local escolhido foi, à época, a última rua do Bairro da Areia, conhecida por Rua das Três, na verdade uma larga avenida, que não ficou menos movimentada pelas suas festas e regalos noturnos.

A decisão administrativa, contudo, não agradou toda a categoria e nem todas as luzes vermelhas se apagaram de todo, e foram ficando e resistindo quiçá clandestinamente. Desse modo, apenas parte dos bordéis da 28 se deslocaram para a Rua das Três, formando assim a 14 de Julho, Era uma questão moralista trazendo à tona social a lógica da matemática: 28 dividido por 2 = 14.

— Nomeemos a rua oficialmente de 14 de Julho, pois da 28 foram para lá parte de suas mulheres da vida.        

E esse é o motivo do nome dessa rua, nome tão tipicamente bacabalense. E até creio que nisso há muito do nosso historiador mais do que a narrativa, há de estar também a ideia e a ação, pois essa era sua cara: brincar com os números e com a história.

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(Costa Filho, Crônica do dia, 14-VII-2020)

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Sexta, 03 Julho 2020 15:57

Tudo certo, mas tudo errado

 

Nem acordou direito se deu conta de que já tinha dobrado os lençóis, ajeitado as fronhas no devido lugar, enfim, a cama estava toda arrumadinha, como de costume. Pronto, agora estava tudo certo.

—Atchim! Atchim! Atchim!

—Não está tudo certo, está tudo errado.

— Como assim, tudo errado?

— O alergologista, o imunopatologista, o otorrinolaringologista, ou sei lá o que, enfim, o médico especialista em ácaros disse na tevê que...

— Disse o quê?  Que eu estou errado ao organizar a própria cama?

— Não, que esse procedimento não é o correto.

— Ah, agora eu vi! Quer dizer que o certo é ser desorganizado?

— Não, o certo é fazer do jeito certo.

— E como é o jeito certo?

— A cama deve ficar desarrumada...

— Fala sério...

— Estou falando sério. A cama não deve ser arrumada por pelo menos uma hora.

— Isso não pode ser verdade.

— Mas é verdade, esse é o tempo em que os ácaros já estão enfraquecidos ou mortos pelo ar e pela luz.

— É por isso que o mundo está virado, o certo virou errado e o errado virou certo.

— Não é bem assim...

— Ora! Vá entender... Quando se pensa que se vai bem, se vai muito mal.

— Mas isso faz mal.

— Ser organizado?

— Não, os ácaros.

— Ora! Eu sei que os ácaros são nocivos, mas eles não vão mudar meus hábitos, meus bons hábitos.

— Os especialistas também afirmam que ser perfeccionista também faz mal.

— Agora mais essa?

— Tudo em excesso faz mal. Enfim, a cama deve ficar desarrumada.

— Isso é uma piada! Só pode! Uma grande pia... Aaaaaatchin!

— Olha aí o resultado.

— Eu não vou ceder a esses caprichos medicinais. Preciso do meu advogado.

— Então é melhor travar luta diária contra cerca um milhão e meio de ácaros? E daí ficar sujeito a contrair asma? Eczemas ou dermatites? Febre do feno crônica? E outros tantos diferentes tipos de alergias respiratórias e inclusive insônia?

— Aaaargh! Ai, que tortura!... – e pondo as mãos na cabeça – Acho que vou precisar também de um psicólogo...

Saiu correndo porta a fora, enquanto no quarto ficava uma cama sendo desarrumada...

....................

(#EdgarMoreno #CostaFilho, #Minicronicontos, 2020) #ácaros #certo #errado

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Terça, 02 Junho 2020 23:31

CARTA A ADELAIDE (NO ISOLAMENTO)

Terra das Bacabas, tarde de sábado, 09 de maio de 2020.

Minha doce e querida Adelaide,

Agora me ponho, literalmente, à beira duma cama, acomodado num banquinho simples a resolver algumas demandas da vida por meio das redes sociais, esse estilo tão usual por agora: “à la remoto”. Como sabes, e na França não estar a ser diferente, o mundo por esses tempos coexiste no isolamento e no distanciamento das pessoas. Coisa triste, minha Adé, pois quando Deus criou o homem, a única lei de distanciamento era a da árvore da vida, no meio do jardim. Mas convenhamos, de lá para cá, muitos Adões e inúmeras Evas nasceram e pecaram, fizeram sua história e morreram e, por conseguinte, modificaram a paisagem do Éden, que agora não é mais um paraíso, mas um cenário pandêmico duma guerra silenciosa e destrutiva. O mundo chora uma mesma dor coletiva e quase inexplicável, porém há de explicar isso algum dia.

Mas como dizia, cá estou no pé de minha cama, no isolamento do meu quarto a tocar a vida remotamente pelo celular. Quem diria que chagaríamos a esse ponto! E agora, ao me virar para o criado-mudo, vejo um prato servindo de bandeja, uma garrafinha d’água e dois copos de materiais e funções diferentes: para água e para chás. Neste cenário hostil e solitário, vejo ainda alguns livros, um termômetro e uns remédios, que te posso assegurar, não é cloroquina. Por aqui a resistência ao medicamento é ferrenha e discutível, de modo que ninguém se entende sobre o caso. Avalia tu mesma, Adé: o presidente é a favor, enquanto parte dos médicos também, e já outros segmentos maiorais não o são, nem liberam o uso da droga, a bendita droga da vida. E nessa “queda de braço”, pessoas inocentes vão perdendo a vida para essa nova doença, que me recuso a citar o nome.

Resta saber, Adé, quem no fim, estará certo ou errado, ou quem está agindo pensando em acertar ou mesmo protelar, por razões adversas e quaisquer. Só que até lá muitas vidas já se foram em meio a atos de dissensões e politicagens. Neste mundo ambicioso e cruel, nada pode ser descartado. No fim, o cenário é uma arena ideológica, onde cada um defende aquilo em que acredita, tudo isso num momento complexo de fragilização do povo, da saúde desse povo, e, consequentemente da sua vida, que coexiste diariamente na iminência da morte.

Na verdade, minha Adelaide, todo mundo sabe o motivo velado, mas não me cabe ficar tecendo tal ponto nesta nossa carta, que seria de amor, não de dor, esse problema tão fora do nosso mundo de sonhos, mas que termina atingindo o mundo de todo mundo, inclusive o nosso. Se já estávamos longe pela distância, agora ficar distantes nos chegou como um ato de amor. Ah, vida! Ah, mundo! Ah, minha doce Adé! Como o momento é efêmero! Como a flor é efêmera! Como a paisagem inteira é efêmera! Como a arte é efêmera! Como são efêmeras as circunstâncias, o homem, a vida, tudo cá entre nós, humanos.

Aqui faço uma pausa para comer alguma coisa. Minha consorte veio me trazer algo num potinho plástico. São pedaços de melão. Ela já saiu. Não pôde ficar por cautela. Já não posso beijá-la, nem abraçá-la, nem nada mais que ficar aqui nesta alcova com minha máscara, esse lenço que tomou de conta do mundo com sua variedade de cores e estilos, esse lenço que dum dia para outro se tornou o acessório sanitário mais comentado pela população mundial, a partir da China, como o sabes.  

O melão está doce e gostoso e, além de hidratar, espero que o fruto me sirva também de calmante para que hoje minha noite seja tranquila, já que ontem foi-me uma insônia só. Admiro-me que eu não tinha essas coisas e torço que seja apenas o resultado dalguma estafa ou mal-estar passageiro. Os bloquinhos de melão, a cada instante, diminuem na vasilha, de modo que só me restam dois. Tomo um deles, mas não o como logo. Aproveito para olhar pela janela do meu quarto e, ainda que seja dia, há pouco chuviscado, e agora aclarado, vejo que não é um dia daqueles que vão com a nossa cara, como as jovens tardes de domingo.

Não, por aqui a tarde vai morrendo triste, e com ela esse dia de nuvens negras e sem graça. O telefone toca. Não deve ser nada mais importante que tu, minha Adé. E não era mesmo, senão uma daquelas chamadas de telemarketing que nos tira a paciência. Mas não te aflijas disso, já bloqueei o número, apesar de que isso não seja jamais a solução, podendo virem a discar de outro número, mas é certo que já não mais atenderei.

Deixemos para lá tais golpes ou tentações comerciais. Cuidemos de nós, cá neste momento, que deveria ser somente nosso, mas não o é. Olho novamente à janela, enquanto degusto o penúltimo pedaço de “melon”, como dirias tu, com biquinho, em teu mavioso francês. Volto a olhar lá fora. Não é noite feita ainda na janela do tempo, mas o é no relógio humano. O momento traz a triste hora do anoitecer lembrando-me a cantiga “A hora do amor”, do nosso Agnaldo Timóteo, que, vê essa coincidência, é do ano em que nasci.

E é com canção assim, minha querida Adé, que me vem uma imensa saudade de tua presença, de teus abraços, de teus beijos e afagos, sem o receio de contágio ou algum medo que não seja o de me apaixonar cada vez mais e perdidamente por ti. Esse era, e ainda é meu gostoso e incurável medo.

Minha querida, confesso que institivamente a emoção me levou a passar a mão nos olhos, mas de imediato, tirei-as e me higienizei. Que coisa! Essa prática atualmente condenável pela vigilância sanitária, vem agora como a forma mais prática de esconder as lágrimas da saudade. E esta saudade me traz um breve calafrio. Minha pele está quente. Vou-me ver o que me diz o termômetro: trinta e sete graus e meio. Minha consorte me disse ser febre. E concordo com ela, Adé, mas penso que nessa temperatura há algo do teu calor e da tua distância. Contudo, minha querida, não serei um poeta teimoso, um ignorante de minhas dores e perigos à saúde. Já fui na mesinha de medicamentos. Mas não te preocupes exacerbadamente comigo, estou me sentido bem. O único sintoma evidente é essa febre oscilante, que se manifesta mais à noite. Já estive a sentir dores generalizadas leves e umas cinco tosses desde o dia 6 de maio à tarde para cá.

Sei que isso vem te deixar meio preocupada e curiosa se meu caso é pandêmico. Eu francamente não sei te responder, mas penso que não. Rogo ao nosso bom Deus que não seja. No mais, estou me informando junto ao sistema de saúde local, além de estar isolado por prudência. Ao que parece só se faz o teste seguramente a sete dias dos sintomas. Entretanto, sem descartar minha suspeição, penso que possa ser um quadro de estresse ou uma recaída de meus maus dias no ano passado. Em qualquer dos casos, sejamos otimistas e peçamos ao Criador que nos guarde de todos os males. Digo “nos guarde” pensando também em ti, na minha família, nos amigos e na comunidade mundial, em que todos estão necessitados da graça divina.

Sei, minha Adé, que estás a te guardar e a te proteger aí na Cidade Luz, mas, nunca é demais lembrar-te a tão conhecida frase “Fique em casa”, ou como no falar do teu elegante francês “Restez à la maison”.

O tempo passa e já me cobra outros quefazeres. Não que tu me enfades, mas porque, tu o compreendes: a vida não pode parar. Concluamos, pois, esta missiva com duas coisas boas: sintamo-nos juntinhos, por agora, mesmo distantes, e tomemos como brinde à vida, esse mingau de maisena trazido-me há pouquinho. Já se vê: com fastio é o que não estou.

Despeço-me aqui com meu abraço em teus braços, meu beijo em teus beijos.

Do teu

Edgar

 

P.S.: Salve! Salve! Minha Adé! Minha temperatura de agora baixou a 36,8°. Fico por aqui mais otimista e saudável.

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