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Raimundo Silva

Raimundo Silva

Sexta, 31 Julho 2020 10:28

Um breve diálogo

 

Hoje me deparei com uma pergunta, um tanto quanto prosaica, de uma amiga "faceboquiana" quanto à foto de meu perfil, isto é, se ela era minha. Não, respondi a ela, a foto em questão é do filósofo alemão Theodor Adorno (1903-69), cuja ascendência judia e o fato de ser um intelectual  crítico, de esquerda e engajado nas lutas pela liberdade e pela emancipação dos indivíduos, certamente constituíram-se nas razões de ele ser implacavelmente perseguido pelo terror representado pelo regime nazista de Adolf Hitler. Aproveito então este espaço, que me foi gentilmente concedido, para traçar algumas linhas a respeito de algumas das obras desse extraordinário pensador, que se tornaram um marco na análise do autoritarismo e que ainda é fundamental para entendermos não somente os tempos sombrios em que ele viveu, de triste memória para a humanidade, como também os de agora, nomeadamente no Brasil e nos EUA, este governado pelo patético e nada amoroso com o mundo, o senhor Donald Trump, no entanto, mas sem nenhuma surpresa, guru do atual presidente de nosso país. E que por este motivo, confirmando a triste previsão do sociólogo polaco Zygmunt Bauman de que o "nazismo estava derrotado, mas a sua herança assassina longe de ser morta", a obra de Adorno continua reverberando em nossos dias com inquietante atualidade.

Três obras que eu gostaria de mencionar do filósofo, no campo da filosofia política, para uma recomendação de leitura: A Personalidade Autoritária, obra na qual a apropriação da psicanálise para nos fazer entender a consciência de uma pessoa que se projeta na figura de um falso líder para dar sustentação a regimes fascistas, é evidente;  Dialética do Esclarecimento, que nos faz refletir sobre a que ponto chega  o excesso de conhecimento despojado do pensamento crítico que, instrumentalizado, torna-se irracional e se volta para a prática de barbáries (não esqueçamos de que o nazismo "atraiu intelectuais como se fossem moscas", como afirmou o escritor francês Christian Ingrao); e, por fim, Educação e Emancipação, uma obra extraordinária dele sobre o modelo de Educação que ele postula: uma educação política, autônoma, crítica e humanamente emancipatória, como o único anteparo para que as barbáries de indizível horror, como o Holocausto, não voltem a ocorrer. Todo cuidado é pouco. E o alastramento da extrema-direita pelo mundo como um fungo, como previu a sua contemporânea Hannah Arendt (1906-75), com suas práticas políticas que desumanizam o humano tornando-o uma mera coisa para o descarte, deveria, por si só, alargar as nossas consciências para absorvermos com muito gosto a sabedoria do pensamento de Adorno contido nessas três obras. Porque são reflexões, que nos dizem categoricamente que uma democracia plena, onde se permite o dissenso,  a pluralidade de ideias e a liberdade, não somente é o melhor dos regimes políticos, como também o único antídoto contra a nefasta forma totalitária de governar as pessoas, que é o fascismo. Nunca esqueçamos do que falou o poeta e dramaturgo Bertolt Brecht (1898-1956), para o bem das atuais e futuras gerações: "a cadela do fascismo está sempre no cio". Portanto, cuidemos do futuro de nossas crianças.  E a Educação crítica, autônoma e a única que torna as pessoas emancipadas ainda é a ferramenta mais poderosa nesse sentido. O pequeno e comovente texto, abaixo, intitulado Carta aos Professores, sintetiza bem tudo o que escrevi nas linhas anteriores. A carta, de autoria desconhecida, foi deixada num buraco de parede do campo de concentração e extermínio nazista de Auschwitz, na Polônia, e lá encontrada muitos anos depois.

“Sou sobrevivente de um campo de concentração. Meus olhos viram o que nenhum homem poderia ver: câmaras de gás construídas por engenheiros formados, crianças envenenadas por médicos diplomados, recém-nascidos mortos por enfermeiras treinadas, mulheres e bebês fuzilados e queimados por graduados de colégios e universidades. Assim, tenho minhas suspeitas sobre a educação. Meu pedido é: ajudem seus alunos a tornarem-se humanos. Seus esforços nunca deverão produzir monstros treinados ou psicopatas hábeis. Ler, escrever e aritmética só são importantes para fazer nossas crianças mais humanas.”

Por Raimundo Silva

  

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