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Raimundo Silva

Raimundo Silva

Sobre o colunista Raimundo Silva: Advogado aposentado e mestre em Filosofia Política pela Universidade do Minho, Portugal.

Sexta, 02 Abril 2021 15:17

Sérgio versus Ernesto

“Nunca esqueça que os verdadeiros desafios e as verdadeiras recompensas de servir as Nações Unidas estão lá fora, onde as pessoas estão sofrendo e precisam de você” (Sérgio Vieira de Mello)

Por Raimundo Silva*

Hannah Arendt (1906-75), teórica política das mais destacadas do séc. XX, logo no início de sua obra, Homens em Tempos Sombrios, escreveu o seguinte: “mesmo em tempos mais sombrios temos o direito de esperar alguma iluminação, e que tal iluminação pode bem provir, menos de teorias e conceitos, e mais da luz incerta, bruxuleante e frequentemente fraca que alguns homens e mulheres, nas suas vidas e obras, farão brilhar em quase todas as circunstâncias e irradiarão pelo tempo que lhes foi dado na terra”. Permito-me apreender as palavras da filósofa para com elas louvar o diplomata Sérgio Vieira de Mello, um homem que dignificou, como poucos, a diplomacia brasileira que será para sempre dele tributária, embora ele nunca tenha representado o Brasil no exterior, já que por ocasião das grandes missões a ele destinadas, Sérgio ostentava a condição de representante do Alto-Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos. Um cidadão do mundo, que portava um enorme amor ao mundo e aos direitos humanos e que mostrava uma indisfarçável alegria quando se referiam a ele como Sérgio, o brasileiro. A intenção aqui é o de fazer um desagravo a ele, em especial, como também a outros grandes nomes de nossa outrora aclamada diplomacia, a exemplo do Barão do Rio Branco, Osvaldo Aranha, San Tiago Dantas e mais recentemente o respeitadíssimo Celso Amorim, dentre outros, em razão da ruína, com requintes de avacalhação, a que chegou essa estratégica instituição do Estado brasileiro para nossa relações internacionais, por conta da atuação tosca, desnorteada e irresponsável do atual desgoverno brasileiro, que em momento algum honrou as tradições de nossa histórica chancelaria. De modo que, quando lançamos um olhar para o quadro caótico em que se encontra o outrora celebrado Itamaraty, não há como não suspirar de saudades e dizer: que falta que o Sérgio Vieira de Mello faz.

Pode parecer exagero a expressão “requintes de avacalhação”, mas o que dizer da homenagem do Sr. Eduardo Bolsonaro ao defenestrado Ernesto Araújo do ministério das Relações Exteriores, ao afirmar que este foi o maior chanceler da história do país e que resgatou os ideais do Barão do Rio Branco? Um achincalhe, uma extravagância, ou melhor, uma boçalidade dita por quem desconhece o abecedário das negociações políticas internacionais, e mais, quando sabemos que ambos trabalharam diuturnamente para transformar o país num pária internacional, com gravíssimos danos para o Brasil na atual crise sanitária que assola o mundo. Afinal não esqueçamos, esses senhores foram useiros e vezeiros em fustigar com declarações grotescas dois poderosos parceiros comerciais do país ‒ China e Índia ‒ e, hoje, dois dos maiores fornecedores de insumos para a fabricação de vacinas, em consequência, eis a nossa realidade ante a crise sanitária: a triste condição de epicentro da crise mundial, contabilizando no dia em que escrevo este artigo a trágica marca de 3.869 mortes diárias e um total de óbitos ultrapassando o triste número de 321.515. Ou seja, um ilustrativo exemplo de uma antipolítica internacional. Assusta, apavora e indigna. Portanto, quando reflito nessa homenagem vou ao desalento para dizer:  bem-vindo senhores ao mundo das trevas! A impressão que se tem é que os deuses resolveram lançar suas iras em nossa direção, como a nos punir pelo tenebroso erro de amplos setores da sociedade em entregar o destino dessa nação para um projeto necropolítico de poder, que já estava à espreita pronto para dar o bote e promover o desmonte das estruturas democráticas conquistadas por nós ao longo das últimas décadas, a destruição da economia, e por que não dizer para a entrega de nossas riquezas para potências estrangeiras, EUA à frente. Deu no que deu. O que muitos não se deram conta é de que o ato irresponsável deles levaria o país a esse quadro dantesco de puro horror, que vemos hoje, e que se expressa num morticínio em massa que tem a dimensão de um genocídio. Provavelmente, um apagamento de memória do aconteceu na Alemanha, em 33, quando os alemães entregaram o poder para uma certa personalidade patética de nossa história chamada Adolf Hitler. E que deu no que deu. Enfim, o Brasil, hoje, vive uma crise descomunal. Aliás, parafraseando Darcy Ribeiro, para além dela um projeto político que não tem outra lógica que não seja o da destruição de nosso projeto de nação. E é essa a lógica que perpassa a homenagem do filho do presidente ao Ernesto. Afinal, eles são irmãos siameses no ódio que ambos devotam à paz, à vida e a democracia.  O Brasil levará anos para reverter os estragos feitos por esse governo na nossa diplomacia, ao eleger uma pessoa tão desqualificada para conduzi-la.

Uma diplomacia que albergava nela a imagem de homens, como o Sérgio. Este sim, merecedor de todas as homenagens que o mundo democrático e civilizado lhe rende até hoje. Lamentavelmente, vítima de um atentado terrorista promovido pela Al Qaeda quando estava à frente de uma de suas missões mais espinhosas: a reconstrução do Iraque pós-Saddam Hussein. Mas já eternizado no panteão de nossos grandes heróis. Sérgio, um verdadeiro diplomata. Sérgio, um brasileiro.

P.S. Para os que querem conhecer a história do Sérgio há dois grandes filmes na Netflix. Um documentário e um drama com o monumental ator Wagner Moura, ambos intitulados Sérgio.

*Advogado aposentado e mestre em Filosofia Política pela Universidade do Minho, Portugal.

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Quinta, 25 Março 2021 14:13

Precisamos Falar de Poesia

Nos tempos sombrios em que vivemos é sempre bom falar de um poderoso antídoto contra esses tempos. Falo de poesia. Eu preciso falar de poesia. A poesia funciona como um “catalisador crucial para o diálogo e a paz”. Para os que não lembram, o dia 21 de março foi escolhido pela ONU, em 1999, para celebrar o Dia Mundial da Poesia. Lembremos, para sempre, dessa data. Todos nós, principalmente as crianças e os adolescentes, deveriam reservar um tempo diário para a instigante e iluminada leitura dos poetas. O poeta tem uma alma rara, escreve versos com raro lirismo, com raríssima paixão e marcados por um enfático humanismo. Dotados de uma intensa espiritualidade, mais do que nunca os poetas são necessários nesses tempos de pandemia. Afinal, como diz o escritor Frei Betto, “a poesia é a linguagem dos anjos, dos amantes e das crianças”. E mais, segundo ele, “fala mais à emoção que à razão, mais à alma que à cabeça. É a linguagem de Deus”. Provavelmente essa a razão de os fascistas odiarem poesia, já que eles não falam a linguagem de Deus que se expressa no amor aos seres e à vida. Poesia, mais do que uma palavra, é arrebatamento. É puro encantamento que se apodera de uma alma e de um coração, que só os poetas têm. Pensemos no que dizem os versos do poeta português Guerra Junqueiro: “Eu lembrei-me de vós, funâmbulos da Cruz,/Que andais pelo universo há mil e tantos anos,/Exibindo, explorando o corpo de Jesus”. Vejam quanta beleza na poesia da poetisa portuguesa Florbela Espanca: “Minh’alma, de sonhar-te, anda perdida/Meus olhos andam cegos de te ver/Não és sequer razão do meu viver/Pois que tu és já toda minha vida!”. E estes versos do mineiro Drummond, “Mundo mundo vasto mundo/se eu me chamasse Raimundo seria uma rima, não seria solução” (Poema de sete faces), que parecem querer homenagear este seu devoto de toda uma vida? Ah, meu generoso poeta, grato a ti a quem guardarei para sempre nos escaninhos de minha alma e memória! Como não reverenciar a poetisa goiana Cora Coralina, que somente tornou-se conhecida aos 75 anos por obra e graça de um outro grande poeta? Sim, exatamente ele, o nosso querido Drummond que deu luminosidade pública a uma poetisa tão singular. Olhem a força dos versos dessa poetisa: “Não te deixes destruir…/Ajuntando novas pedras e construindo novos poemas/Recria tua vida, sempre, sempre/Remove pedras e planta roseiras e faz doces/Recomeça.” E são tantos, tantos e outros tantos poetas…Pablo Neruda, de Ode a uma estrela; Manuel Bandeira com seu inesgotável poema Vou-me embora pra Parságada;  o mordaz Paulo Leminski de “ópios, édens, analgésicos/não me toque nessa dor/ela é tudo o que me sobra/sofrer vai ser a minha última obra”; a inesquecível Lispector, simplesmente Clarice (“sou o que quero ser, porque possuo apenas uma vida e nela só tenho uma chance de fazer o que quero…”); o poeta baiano Castro Alves (“benditos sejam os escritores, que escrevem livros e levam um povo a pensar”), como esquecer o seu pungente e épico poema Navio Negreiros (“mas que vejo eu aí…/Que quadro d’amarguras!/É canto funeral!.../Que tétricas figuras!.../Que cena infame e vil…/Meu Deus! Meu Deus!/Que horror!. 

E, para concluir o artigo, tenho que destacar o místico poeta lusitano Fernando eterno Pessoa. Aquele que já disse ser inúmeros em um. E que poderia ter muito bem escrito o prólogo ao Evangelho de João (1, 1-18): No princípio era o verbo/E o verbo estava em Deus/E o verbo era Deus (…) E o verbo se fez carne/E habitou entre nós. No entanto, através de seu heterônimo Álvaro de Campos escreveu o mais belo, entre os belos, poema: o monumental Tabacaria. Sonho, poeticamente, em ver um dia esse poema ser elevado à condição de patrimônio mundial. “Precisamos falar de pobreza”, de democracia e também de poesia. Poesia, poesia e mais poesia.

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Sexta, 31 Julho 2020 10:28

Um breve diálogo

 

Hoje me deparei com uma pergunta, um tanto quanto prosaica, de uma amiga "faceboquiana" quanto à foto de meu perfil, isto é, se ela era minha. Não, respondi a ela, a foto em questão é do filósofo alemão Theodor Adorno (1903-69), cuja ascendência judia e o fato de ser um intelectual  crítico, de esquerda e engajado nas lutas pela liberdade e pela emancipação dos indivíduos, certamente constituíram-se nas razões de ele ser implacavelmente perseguido pelo terror representado pelo regime nazista de Adolf Hitler. Aproveito então este espaço, que me foi gentilmente concedido, para traçar algumas linhas a respeito de algumas das obras desse extraordinário pensador, que se tornaram um marco na análise do autoritarismo e que ainda é fundamental para entendermos não somente os tempos sombrios em que ele viveu, de triste memória para a humanidade, como também os de agora, nomeadamente no Brasil e nos EUA, este governado pelo patético e nada amoroso com o mundo, o senhor Donald Trump, no entanto, mas sem nenhuma surpresa, guru do atual presidente de nosso país. E que por este motivo, confirmando a triste previsão do sociólogo polaco Zygmunt Bauman de que o "nazismo estava derrotado, mas a sua herança assassina longe de ser morta", a obra de Adorno continua reverberando em nossos dias com inquietante atualidade.

Três obras que eu gostaria de mencionar do filósofo, no campo da filosofia política, para uma recomendação de leitura: A Personalidade Autoritária, obra na qual a apropriação da psicanálise para nos fazer entender a consciência de uma pessoa que se projeta na figura de um falso líder para dar sustentação a regimes fascistas, é evidente;  Dialética do Esclarecimento, que nos faz refletir sobre a que ponto chega  o excesso de conhecimento despojado do pensamento crítico que, instrumentalizado, torna-se irracional e se volta para a prática de barbáries (não esqueçamos de que o nazismo "atraiu intelectuais como se fossem moscas", como afirmou o escritor francês Christian Ingrao); e, por fim, Educação e Emancipação, uma obra extraordinária dele sobre o modelo de Educação que ele postula: uma educação política, autônoma, crítica e humanamente emancipatória, como o único anteparo para que as barbáries de indizível horror, como o Holocausto, não voltem a ocorrer. Todo cuidado é pouco. E o alastramento da extrema-direita pelo mundo como um fungo, como previu a sua contemporânea Hannah Arendt (1906-75), com suas práticas políticas que desumanizam o humano tornando-o uma mera coisa para o descarte, deveria, por si só, alargar as nossas consciências para absorvermos com muito gosto a sabedoria do pensamento de Adorno contido nessas três obras. Porque são reflexões, que nos dizem categoricamente que uma democracia plena, onde se permite o dissenso,  a pluralidade de ideias e a liberdade, não somente é o melhor dos regimes políticos, como também o único antídoto contra a nefasta forma totalitária de governar as pessoas, que é o fascismo. Nunca esqueçamos do que falou o poeta e dramaturgo Bertolt Brecht (1898-1956), para o bem das atuais e futuras gerações: "a cadela do fascismo está sempre no cio". Portanto, cuidemos do futuro de nossas crianças.  E a Educação crítica, autônoma e a única que torna as pessoas emancipadas ainda é a ferramenta mais poderosa nesse sentido. O pequeno e comovente texto, abaixo, intitulado Carta aos Professores, sintetiza bem tudo o que escrevi nas linhas anteriores. A carta, de autoria desconhecida, foi deixada num buraco de parede do campo de concentração e extermínio nazista de Auschwitz, na Polônia, e lá encontrada muitos anos depois.

“Sou sobrevivente de um campo de concentração. Meus olhos viram o que nenhum homem poderia ver: câmaras de gás construídas por engenheiros formados, crianças envenenadas por médicos diplomados, recém-nascidos mortos por enfermeiras treinadas, mulheres e bebês fuzilados e queimados por graduados de colégios e universidades. Assim, tenho minhas suspeitas sobre a educação. Meu pedido é: ajudem seus alunos a tornarem-se humanos. Seus esforços nunca deverão produzir monstros treinados ou psicopatas hábeis. Ler, escrever e aritmética só são importantes para fazer nossas crianças mais humanas.”

Por Raimundo Silva

  

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