Terça, 29 Setembro 2020
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Número tabu: camisa 24 é rejeitada no futebol brasileiro

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Esporte Espetacular ouviu ex-jogadores, historiadores e atletas para analisar como o simples sumiço de um número pode estar escondendo uma série de preconceitos enraizados na nossa cultura

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O ano de 2020 começou jogando luz em uma polêmica. O colombiano Cantillo, meia apresentado pelo Corinthians no inicio de janeiro, sempre usou a camisa 24 em seu país. Mas aqui foi orientado a não usar tal número que é popularmente associado ao homem gay. Tanto que o diretor do clube, Duílio Monteiro Alves se desculpou por um comentário homofóbico durante a apresentação do meia. Mas afinal de onde surgiu essa conexão do número 24 com a homossexualidade?

No Brasil o jogo do bicho teve uma influência muito forte nessa propagação ao preconceito contra a numeração. E ainda hoje se associa o número ao animal veado, que era o 24 no jogo que foi criado por João Drummond, e era inspirado no Jardim Zoológico do Rio de Janeiro.

- Como havia no imaginário popular essa relação do veado com o homossexual, o número 24 acabou tenso essa pecha, até porque o jogo do bicho se populariza de uma forma muito impactante no Rio de Janeiro e depois vai para o Brasil inteiro - explica o historiador Luiz Antonio Simas.

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E o preconceito está até nos uniformes. Com clubes e jogadores praticamente banindo o número 24 do futebol brasileiro. Nos dez jogos da última rodada da Série A do ano passado, 419 jogadores estiveram em campo nas súmulas da CBF, mas apenas o jovem Brenno, terceiro goleiro do Grêmio portava tal numeração.

- Me parece que a sociedade está mudando, e acho até que para melhor nesse sentido. Mas o futebol surpreendentemente não. O futebol ainda é um meio profundamente machista - conta o historiador.

Os clubes brasileiros só não conseguem driblar a exigência da conmebol. Nas competições Sul-Americanas, eles são obrigados a usar a numeração, pois é necessário inscrever jogadores de 1 a 30. Mas mesmo assim o escolhido para ficar com a 24, geralmente é o terceiro goleiro ou um estrangeiro. Na Libertadores do ano passado, o Flamengo deu para o zagueiro espanhol Pablo Marí, que no campeonato brasileiro usava a camisa quatro.

Alguns clubes, poucos é verdade, têm feito do combate ao preconceito uma bandeira. E nenhum tem sido tão atuante quanto o Bahia. Uma das metas da gestão, que assumiu no início de 2018, é transformar o clube no mais democrático e inclusive do Brasil. O primeiro passo foi criar um núcleo de ações afirmativas, que usa o futebol para chamar a atenção da sociedade para diversas causas.

- O Bahia quando toma coragem de trazer discussões como a causa LGBT por exemplo, a gente sabe que é um enfrentamento pioneiro, corajoso, e que a gente logicamente sofre um pouco com isso. Mas é um sofrimento válido. É um sofrimento que nos dá força - conta o presidente do Bahia, Guilherme Bellintani.

No Brasileiro Pablo Marí utilizava camisa 4 — Foto: EDU ANDRADE/FATOPRESS/ESTADÃO CONTEÚDO

Mas infelizmente dentro de campo, o preconceito ainda segue ganhando de goleada. Ao contrário do futebol feminino em que atletas como a americana Rapinoe deixam clara sua a opção sexual e seguem normalmente suas carreiras, no futebol masculino a homossexualidade ainda é um forte tabu.

- Eu não nem imagino porque as pessoas não se assumem. Porque eu sempre assumi tudo que eu sou, então assim, se as pessoas não assumem que elas são eu nem imagino porque - diz o ex-jogador Romário.

A dura realidade de quem sofreu no campo sem poder se assumir

Aos 12 anos, Douglas Braga deixou a família no interior de Minas Gerais e veio para o Rio tentar a sorte no futebol. Nas categorias de base, jogou no Madureira e aos 19 anos se profissionalizou pelo Botafogo. Nessa mesma época em que ficou no banco num jogo do Campeonato Brasileiro, contra o Athlético Paranaense, estava descobrindo a sexualidade. Mas nunca se permitiu assumir que era gay para os companheiros.

- É um ambiente em que você tem que ser tudo o que as pessoas querem, menos você mesmo - revela o ex-jogador Douglas Braga.

Douglas Braga, ex-jogador do Botafogo — Foto: Reprodução TV

O medo de perder a oportunidade no futebol fez com que ele seguisse sem se assumir. Douglas ainda ficou dois anos e meio no Botafogo, até se transferir para o Bangu. Ainda tinha muito anos de futebol pela frente, mas parou cedo de jogar.

- Há dois anos mais ou menos eu posso falar que a vida seguiu e eu estou feliz. Durante todos esses outros anos não, porque você vê companheiros, pessoas que você jogava contra jogando, jogando campeonatos, seleção e você pensa eu podia estar ali também. Que direito é esse que as pessoas tem de tirar seus sonhos? Aí batia muito e por mais que você tente seguir a vida, você sempre fica com aquele histórico do ex-atleta , das pessoas perguntarem, das pessoas questionarem por que não continuou. E mais curioso é que as pessoas... A mas foi por isso? Como se isso fosse muito pouco, mas não é. Você não poder viver sua vida não é pouco. Eu falo que há dois anos eu estou mais completo, porque quando surgiu esse movimento de futebol LGBT eu consegui me realizar.

- Pelo simples fato das pessoas não aceitarem uma condição que é sua, mas quando tudo começou a ficar um pouco mais forte, a atração, a forma de não saber lidar com aquilo e foi quando eu falei: "Não dá, não é para mim mais e aqui eu sigo outro caminho". Você não consegue ser duas pessoas durante muito tempo. Acabei vivendo essa identidade falsa durante muito anos - conta o ex-goleiro.

 Douglas acredita que só com respeito para virar o jogo contra o preconceito. Ele espera que no futuro as pessoas possam usar o número sem passar qualquer tipo de problema.

- Talvez um dia eu não vou ser zuado de usar a camisa 24. É um processo que demora tempo, mas eu acho que as próximas gerações vão entender melhor isso. Espero que as pessoas, principalmente os atletas possam olhar com mais carinho para essas questões sociais, eles precisam bancar algumas questões. Eu sei que tudo está envolvido em marcas, em valores, em patrocínio e de repente não querem falar sobre isso ou não apoiam.

Preconceito ainda impede que algum jogador se assuma como gay

O episódio com o dirigente do Corinthians serviu para mostrar que o preconceito no futebol está até nas pequenas coisas, como um número de uma camisa. Mas para alguns jogadores atuais, isso já deveria ser coisa do passado.

- Besteira o que aconteceu, um número não vai mudar nada na vida de ninguém. Camisa que o cara gostava, acho que não teria problema nenhum usar. Isso não cabe mais dentro do futebol - diz o meia Hyoran, na sua apresentação ao Atlético Mineiro.

Para o novo zagueiro do Coritiba, Rhodolfo, o ambiente do futebol é tão preconceituoso quanto a nossa sociedade. Defensor lembrou que em muitos jogos ja ouviu xingamentos homofóbicos ou racistas de torcidas adversárias para quase todos os jogadores. E que isso dificilmente fará com que algum jogador se assuma homossexual.

- Infelizmente no Brasil ainda há esse preconceito. Eu acho que deve ter jogador que é gay, mas acho que dificilmente ele irá assumir por causa da sociedade. Pelo julgamento que é, ainda mais no futebol. Falam que é mais para homem. Acho bem difícil alguém assumir, mas esse preconceito precisa acabar. Cada um tem um gosto, então a gente precisa respeitar.

 
 
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