Maranhenses transgêneros falam sobre os desafios da busca pela própria identidade

Nesta sexta-feira (29) é comemorado o Dia da Visibilidade Trans e o G1 conversou com maranhenses que vivem essa realidade.

Maranhenses transgêneros falam sobre os desafios da busca pela própria identidade — Foto: Arte G1

“O que queremos é um local de fala diferente, que não seja o tráfico, marginalidade e a prostituição’’, resume a publicitária maranhense Dani Carvalho, que aos 14 anos se reconheceu como uma mulher transexual, durante a passagem do ensino fundamental para o ensino médio.

Nesta sexta-feira (29), é comemorado o Dia da Visibilidade Trans, a data foi assumida pela população trans em 2004, após o lançamento da campanha “Travesti e Respeito” para promover a cidadania e o respeito entre as pessoas.

Só em 2019, pelo menos 124 pessoas transgênero, entre homens e mulheres transexuais, transmasculinos e travestis foram assassinadas no Brasil, enquanto nos dez primeiros meses de 2020, o número de assassinatos chegou a 175. Entre a estatística está a maranhense Natasha Nascimento, que foi espancada por cinco pessoas, vítima do preconceito e intolerância contra transexuais, em outubro do ano passado.

Para Dani, são muitas barreiras a serem enfrentadas por ser transgênero no Maranhão. Segundo ela, o fato de ser vista como uma pessoa “diferente” do padrão social resulta em diversas formas de preconceito.

 “Os transexuais são vistos como um objeto sexual, um fantoche a ser manipulado ou mesmo somente um mero bobo da corte a ser difamado e que sempre terá que enfrentar diversas barreiras para ser realmente levado a sério”, conta a publicitária.

Para Dani, são muitas barreiras a serem enfrentadas por ser transgênero no Maranhão. — Foto: Arquivo pessoal

Dani relembra a dificuldade de ser aceita socialmente na escola em que estudava, quando já havia iniciado a transição de gênero. Ela diz que, apesar do apoio de alguns colegas, era julgada e até ameaçada por ter nascido com essa condição.

 “O ensino médio é como a sociedade em geral se comporta, nunca fui agredida na escola, mas ameaçada física e psicologicamente já fui várias vezes e tinha que saber lidar com a situação para não se tornar algo maior e eu perder o controle’’, diz.

A questão da transexualidade também foi vivida por Micah Aguiar. O estudante de Relações Públicas começou a questionar seu gênero em 2015, quando se envolveu com movimentos sociais, especialmente o feminista. Segundo ele, há cinco anos começou a ter interesse sobre o tema e percebeu que não se identificava com o que as pessoas colocavam como “ser mulher”.

 “As mulheres estavam o tempo todo falando sobre o que era ser mulher e o peso que isso tinha em sociedade e na minha cabeça, eu estava esperando o momento no qual me tornaria uma delas”, conta Micah.

Micah se identifica com o gênero não binário  — Foto: Arquivo Pessoal

O estudante se identifica como não-binário, que engloba todas as identidades de quem foge ao binário de gênero, ou seja, quem não é completamente homem, nem completamente mulher.

 “É difícil lidar todos os dias com as pessoas errando o meu pronome, às vezes até propositalmente, mesmo eu deixando claro os que eu prefiro. Usar a palavra ‘mulher’, negando minha existência, afeta muito meu psicológico, me causa disforia”, explica Micah.

Micah ainda lembra como foi a reação da família, ao contar que não se identificava enquanto mulher. “Quando eu contei para os meus pais, eles aceitaram tudo, tentaram entender e principalmente me entender, mas ainda é um pouco difícil para eles se adequarem ao meu nome e pronome. Acho que a transição de pensamentos ainda é algo lento e complicado para eles, mas nunca me trataram diferente por eu ser quem sou”, conta.

 

Luta contra o preconceito

 

A transexual Wanessa Lobato nasceu no Dia da Visibilidade Trans e desde os 24 anos faz tratamento hormonal para desenvolver características relacionadas ao gênero feminino. Ela relata que durante o período de transição, já enfrentou algumas situações constrangedoras, como ao participar de entrevista em uma rádio, para divulgar seu trabalho como cantora.

 "Quando abri um show ano passado, fui às rádios divulgar o evento. Chegando em uma das rádios locais, o locutor me apresentou no masculino ao vivo no programa. No primeiro momento relevei e eu mesma falei meu nome corretamente. Depois ele insistiu em me chamar no masculino no ar, não segurei e o corrigi publicamente. Foi a situação mais constrangedora que vivi", relembra.

Wanessa Lobato começou o processo hormonal aos 24 anos  — Foto: Arquivo Pessoal

Por ter tido uma educação conservadora em casa, Wanessa diz ter passado por dificuldades para se reconhecer como mulher. Além disso, ela relembra que quando começou a cantar, decidiu ser Drag Queen e se apaixonou pela arte, tendo mais contato com o mundo feminino a partir de então.

 "As pessoas não respeitam o gênero mesmo você falando como prefere ser tratada. Me sinto parte dessa luta e estamos muito longe de conquistar o que deveria ser o básico: o direito de ser quem somos", diz.

 

 

FONTE: https://g1.globo.com/ma/maranhao/noticia/2021/01/29/maranhenses-transgeneros-falam-sobre-os-desafios-da-busca-pela-propria-identidade.ghtml