O Retorno do Ex-Metalúrgico

Empresário ourinhense divulga publicação ofensiva e ameaçadora ao  ex-presidente Lula - Jornal Contratempo

Por: Raimundo Silva*

Certos homens ficarão para a história, pela forma como eles passaram nela com as suas lutas e conquistas, e até por suas derrotas que só são derrotas pelas narrativas dos que se autointitulam vencedores, o que nem sempre corresponde às narrativas das singularidades da história, estas sim factuais. O ex-presidente Lula, queiramos ou não ‒ não sou lulista nem petista, mas reconheço o valor histórico que tem o ex-operário que chegou à presidência do país ‒, já se tornou uma ideia como ele mesmo afirmou.

Retorno, então, a este portal para falar do pronunciamento que ele fez na semana passada a demonstrar, de forma cabal, que está mais vivo do que nunca. O discurso que ele fez não foi apenas o de um ex-presidente, de um ex-preso político ou de uma liderança política em estado de graça. Para além disso, foi o discurso de um estadista, aí sim, num patamar superior. Conhece, o Lula, como poucos hoje no mundo, os ardilosos meandros da geopolítica mundial. Em razão disso, aqui uma certeza: o Brasil tem na atualidade um dos mais proeminentes atores políticos que estão aptos para o jogo jogado da política internacional, e que bem pode ser o antídoto para a gravíssima situação política a que chegou o Brasil: a de um pária internacional, por conta do negacionismo assumido pelo governo bolsonarista em relação a grave crise sanitária que assola o mundo. Situação essa não compatível com as potencialidades do país. É evidente, que as retrógradas elites e os que lhes seguem, não à toa chamadas de elites do atraso, não reconhecem isso e vão, como já o fazem costumeiramente, destilar os amargos ódio e preconceito de sempre. E o Lula com a ironia e o humor que lhe são característicos, vai responder: “chupe a cana, querido, que é doce!”. Em tempos de ódio, de palavras chulas, grosseiras e temerárias ameaças contra os que pensam diferente, com o estímulo escancarado do atual presidente, frases como essa soam aos meus ouvidos como um fado da cantora portuguesa Carminho ou como um tango de Carlos Gardel. Em tempos de dores e lágrimas e de crises, política e sanitária, vieram em boa hora a decisão do ministro do STF Edson Fachin tornando nulas as condenações do ex-presidente, a retomada da análise do pedido de suspeição do ex-juiz Sérgio Moro e o pronunciamento do Lula, este mostrando a vitalidade de um animal político que tem uma incrível vocação para mexer as pedras de um tabuleiro político: mexeu com os brios da sociedade e provocou o governo no que diz respeito à sua irresponsável condução da crise sanitária, que já coloca o Brasil no epicentro dessa crise mundial. Obviamente, que ainda continuo a alimentar o sonho de um candidato único escolhido pelas forças progressistas e das esquerdas do país, como a melhor solução para enfrentar o monstro fascista que tenta, e com a máquina de poder nas suas mãos, se apoderar definitivamente do país. Afinal, não podemos esquecer de que foram os erros decorrentes da desunião delas, e que ainda ressoam com inquietante atualidade, que possibilitaram a entrega do país ao “senhor do manicômio”. No entanto, como convencer o senhor Ciro Gomes, a quem considero um quadro político e técnico por excelência, da importância da estratégica união de nossas forças progressistas e de esquerda? Como convencê-lo de que os ataques que ele dirige ao “lulopetismo”, por mera conveniência eleitoral, são profundamente equivocados e que se prestam ao desserviço na nossa inevitável luta contra o fascismo, hoje a luta que se coloca para além de todas as lutas? Este é um desafio complexo que se coloca para as nossas lideranças políticas, em especial o Lula, isto é, trazer o Ciro para o nosso campo e, oxalá, articular a tão sonhada frente das esquerdas para derrotar o fascismo representado pelo bolsonarismo. Sim, por que o que se afigura aqui é uma imagem de dois governos: um, o autoritário conduzido por um déspota que governa um país como se fosse um cemitério, e, portanto, com o caráter de um estado necropolitico, e um outro, o democrático, desenvolvimentista e socialmente inclusivo e que terá como uma de suas principais políticas, a gestão da vida. Enfim, com o pronunciamento, Lula já foi à luta, como a dizer: “a sorte está lançada!”. O Brasil estava precisando dessa lufada de esperança, do verbo esperançar como falava o imortal, pela imortalidade de sua obra, Paulo Freire. A propósito, parafraseando este educador, e assim como ele (Freire), o Lula não fala em esperanças por teimosia, mas por saber que nele a esperança se constitui como um imperativo existencial e histórico. Nós precisamos dar vida e voz a essa esperança nas ruas.

*Advogado aposentado e Mestre em Filosofia Política pela Universidade do Minho de Portugal.